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A tuberculose e o Sanatório Naval de Nova Friburgo

A tuberculose pulmonar, no passado conhecida como tísica, é uma das doenças mais antigas na história da humanidade. Estudos em múmias originárias do Vale dos Reis demonstram que acompanha o Homem há milênios. Trata-se de uma doença infectocontagiosa transmitida pelas vias aéreas (espirro e tosse) que afeta principalmente os pulmões. A sua etiologia constituía uma incógnita para os médicos até o final do século 19, chegando-se ao ponto de atribuir como causa o luxo excessivo, a ingestão de alimentos deteriorados, hábitos sedentários e a sífilis, só para ficar em alguns exemplos.

Laboratório do Sanatório Naval. Acervo Sanatório Naval
Laboratório do Sanatório Naval. Acervo Sanatório Naval

No Brasil Império a doença era conhecida como febre de abatimento, peste branca, dama branca, febre hética, velha senhora, fraqueza do peito, fimatose e tísica. A tuberculose era uma doença de elevado índice de mortalidade e por isto o seu diagnóstico era considerado quase uma sentença de morte. Historiadores estimam que a tuberculose eliminou cerca de ¼ da população da Europa no século 19. Em cada família brasileira era certo haver uma pessoa, pelo menos, com esta doença.

Pacientes do sanatório em Friburgo posam para foto. Acervo Sanatório Naval
Pacientes do sanatório em Friburgo posam para foto. Acervo Sanatório Naval

Caracterizou-se pelo ecletismo o tratamento dos “fracos do peito”. A sangria e muitos exemplares da flora brasileira foram empregados como o agrião selvagem, o suco de cipó chumbo, a resina da jataí com açúcar, a aguardente como xarope, o fruto de goiabeira, leite de burra ou de cabra mamado em jejum nos próprios animais, café com leite e mocotó. Morreram de tuberculose São Francisco de Assis, Manoel da Nóbrega, José de Anchieta, Chopin(que expressa em  algumas de suas composições o drama da doença), Bellini, Rossini, Mozer, Stravinsky, o pintor Rafael, Weber, Grambell, Franz Kafka, Calvino, Simon Bolívar, Salazar e George Orwel. D. Pedro I faleceu em 1834, aos 36 anos, de tuberculose. Castro Alves morreu tuberculoso aos 24 anos deixando inacabado o poema Os Escravos.

Enfermaria dos praças arejadas com muitas janelas. Acervo Sanatório Naval
Enfermaria dos praças arejadas com muitas janelas. Acervo Sanatório Naval

Esta doença inspirou escritores, poetas e compositores. Dostoiévski, tuberculoso, transporta em toda sua obra, a exemplo de Crime e Castigo o terror da doença, assim como Stendhal em O Vermelho e o Negro e Victor Hugo em Os miseráveis. O livro A Dama das Caméliasromance autobiográfico de Alexandre Dumas Filho se inspirou em suas relações com a cortesã Marie Duplessis, que padecia desta doença. Este romance inspirou o compositor Giuseppe Verdi na ópera La Traviata. O terceiro ato é dramático com a morte de uma mulher abandonada por estar com tuberculose. Giacomo Puccini se inspirou igualmente em A Dama das Camélias e compôs La Bohème.

O bonde puxado a burro utilizado para ir ao centro da cidade. Acervo Sanatório Naval
O bonde puxado a burro utilizado para ir ao centro da cidade. Acervo Sanatório Naval

O mais conhecido romance que aborda a tuberculose é o livro Montanha Mágica, de Thomas Mann. O escritor ambienta o livro no Hotel Schatzalp, em Davos, na Suíça onde a cada ano tuberculosos buscavam a cura na taumaturga montanha mágica. O livro foi publicado em 1924 e apenas nos primeiros quatro anos alcançou uma tiragem fenomenal de 100.000 exemplares. Foi traduzido em 27 idiomas e logo o mundo inteiro estava lendo sobre a existência microcósmica dos pacientes com tuberculose de um sanatório nas montanhas da Suíça. No Brasil um livro que fez muito sucesso foi Floradas na Serra. A autora Dinah Silveira de Queiroz igualmente relata o cotidiano sanatorial.

Sanatório de Schatzalp em Davos, que inspirou Thomas Mann. Acervo internet
Sanatório de Schatzalp em Davos, que inspirou Thomas Mann. Acervo internet

No Brasil, 44 poetas morreram de tuberculose entre a idade 23 e 35 anos. Álvares de Azevedo, Euclides da Cunha, Ferreira Gular, entre outros. Augusto dos Anjos que padecia da doença fazia referência à tuberculose em sua obra, assim como Manuel Bandeira. Desde que descobre ser tuberculoso Manuel Bandeira inicia uma peregrinação em busca de cura em Minas Gerais, Petrópolis, Teresópolis, e até mesmo nos sanatórios de Clavadel e Davos, na Suíça. Publicado em 1930, o poema Pneumotórax no livro Libertinagem, um clássico do modernismo brasileiro, ironiza esta doença.

Acreditava-se que o clima de altitude curava a tuberculose. Acervo Sanatório Naval
Acreditava-se que o clima de altitude curava a tuberculose. Acervo Sanatório Naval

A partir de uma pesquisa empírica do médico alemão Alexander Spengler(1827-1901)  passa-se a acreditar que o clima dos alpes ou das montanhas poderia curar a tuberculose. Em 1853 surge uma oportunidade de trabalho para Spengler em um posto médico em Davos, uma aldeia simples e isolada no cantão de Grison. O médico observou que os habitantes de Davos tinham uma boa constituição física e não havia na localidade nenhum caso de tuberculose, o que era uma raridade. Splengler começou a receber alguns pacientes tuberculosos e lhes prescrevia caminhadas, consumo de até 3 litros de leite ao dia, uma dieta fortificante com carne e ovos, vinho com moderação, massagens e duchas frias.

Pacientes tuberculosos jogando malha. Acervo Sanatório Naval
Pacientes tuberculosos jogando malha. Acervo Sanatório Naval

Como o estado de saúde de seus pacientes melhorou, Splengler concluiu que o clima de altitude não só protegia da tuberculose, mas igualmente a curava. Na sua observação empírica o tratamento nas montanhas deveria ser feito se possível no inverno devido aos benefícios do ar frio e rarefeito. Utilizava ainda no tratamento a hidroterapia, notadamente as duchas frias, outra inovação na época. A notícia de sua experiência promissora se espalhou rapidamente entre a comunidade científica internacional. Em 1868, Spengler estabeleceu o primeiro sanatório em Davos, destinado a pacientes ricos.

Pacientes tuberculosos tomam sol no Sanatório de Leysin. Acervo internet
Pacientes tuberculosos tomam sol no Sanatório de Leysin. Acervo internet

O tratamento em sanatórios no ar salubre, frio e sobretudo seco em localidades com clima de altitude passou a ser considerado a terapia padrão para a tuberculose pulmonar. Em 1882, Robert Koch identificou o agente causal desta doença, que passou a ser conhecido como bacilo de Koch. Mas o tratamento para combater efetivamente este bacilo ainda levaria algumas décadas desde a sua descoberta. Por conseguinte, os médicos continuavam a prescrever o clima de altitude para a cura da tuberculose.

A tuberculose eliminou ¼ da população da Europa no século 19. Acervo Sanatório Naval
A tuberculose eliminou ¼ da população da Europa no século 19. Acervo Sanatório Naval

O município de Nova Friburgo, além das condições climáticas favoráveis a convalescença da tuberculose possuía o Instituto Sanitário Hidroterápico, considerado de excelência, inaugurado em junho de 1871, de propriedade dos médicos Carlos Éboli e Fortunato Correia de Azevedo. No manual de medicina do famoso médico polonês Piotr Czerniewicz há uma descrição completa deste estabelecimento, o que denota sua importância no tratamento hidroterápico. Em 1876 o Imperador D. Pedro II, diabético, e a imperatriz fizeram uso das duchas durante um mês no Instituto Hidroterápico de Friburgo. No entanto, no ano seguinte, quando o francês Antonie Court instalou em Petrópolis o Imperial Estabelecimento Hidroterápico, Pedro II passou a frequentá-lo.

O Instituto Hidroterápico em Nova Friburgo, o prédio com chaminé. Acervo BN
O Instituto Hidroterápico em Nova Friburgo, o prédio com chaminé. Acervo BN

A hidroterapia consistia na aplicação externa e interna de água. Externa sob a forma de duchas frias e interna com a ingestão de abundante quantidade de água, na maioria das vezes fria ou gelada. Tais recursos eram associados a sudoríferos energéticos, massagens prolongadas, caminhadas e alimentação balanceada. O tratamento com duchas destinava-se à cura de moléstias como tuberculose na fase inicial, beribéri, anemia, caquexias, diarreias, dispepsia, gastrite, hepatopatias, neuropatias, distúrbios mentais, reumatismo, gota, febres intermitentes e rebeldes, bronquites e patologias uterinas.

A etiologia da tuberculose constituía uma incógnita até o século 19. Acervo Sanatório Naval
A etiologia da tuberculose constituía uma incógnita até o século 19. Acervo Sanatório Naval

O clima de altitude e o Instituto Hidroterápico atraíram a Marinha para a salubre Nova Friburgo, se instalando no ano de 1889 inicialmente para o tratamento de seus marujos acometidos de beribéri. Foram alugadas na rua General Osório duas chácaras com casas de vivenda que se comunicavam por um caminho interno. Anos depois, a Marinha adquiriu o chalé de caça, conhecido como “barracão” de Bernardo Clemente Pinto Sobrinho, o Conde de Nova Friburgo. O chalé era circundado por uma mata de 196 alqueires. Efetuada a compra, em 30 de junho de 1910, a Marinha passa a ter uma propriedade própria para o tratamento médico de seus oficiais e praças.

Duchas aplicadas a pacientes de diversas doenças. Imagem internet
Duchas aplicadas a pacientes de diversas doenças. Imagem internet

Pouco depois descobriu-se que o beribéri era uma deficiência de vitamina B1 e ficou bem mais fácil tratá-la. Consequentemente, a Marinha volta-se para outra doença que ceifava muitas vidas de seu pessoal, a tuberculose. Cumpre destacar que desde a sua inauguração, o chalé não estava devidamente aparelhado havendo inclusive críticas quanto às precárias condições com que começou a funcionar. Muito pouco se tinha feito para adaptar a outrora vivenda familiar em um sanatório propriamente dito.

Charrete que servia de transporte até o advento do automóvel. Acervo Sanatório Naval
Charrete que servia de transporte até o advento do automóvel. Acervo Sanatório Naval

O único meio de condução para a cidade era um bonde puxado a burro, deslisando sobre trilhos, deixado pelo conde. Foi posteriormente substituído por uma charrete que servia de transporte até o advento do automóvel. Como o serviço considerado indispensável era a ducha, que tivera resultados eficazes em pacientes com atrofias provocadas pelo beribéri, em 1918 o chalé já contava com a aparelhagem de ducha. Em 1921, um pavilhão foi edificado na propriedade para a aplicação da ducha, eletroterapia e radioterapia.

Em 1921 um pavilhão foi edificado para a aplicação das duchas. Acervo Sanatório Naval
Em 1921 um pavilhão foi edificado para a aplicação das duchas. Acervo Sanatório Naval

Já em 18 de fevereiro de 1936 foi inaugurado num dos pontos mais altos da propriedade, o hospital de tuberculosos, conhecido na cidade como “HT”, e se convencionou chamar a base da Marinha em Nova Friburgo de Sanatório Naval. No pavilhão de Tisiologia começou a funcionar quatro enfermarias para os praças e uma outra com quartos privativos para os oficiais. Nas suas instalações possuía uma fossa biológica para o tratamento das águas servidas lançadas no rio Bengala. Os restos de alimentos deixados nos pratos eram incinerados, assim como colchões, travesseiros e vestuário, quando descartados. Após cada refeição eram esterilizados todos os pratos e talheres, como também as roupas de cama e de uso individual dos baixados.

O hospital se transformou em um hotel. Acervo Sanatório Naval
O hospital se transformou em um hotel. Acervo Sanatório Naval

Em fevereiro de 1941, por solicitação do diretor do Sanatório Naval, as irmãs de caridade da Ordem de São Vicente de Paulo foram convidadas a auxiliar no sanatório. Ajudavam na lavanderia, cozinha e assistência espiritual aos enfermos. Foi providenciada habitação para as freiras bem próxima ao hospital e edificou-se uma capela. Além do Sanatório Naval, Nova Friburgo na década de 1940 tinha um sanatório privado denominado de Santa Therezinha, no bairro Catarcione. Desde a sua fundação em 03 de janeiro de 1820, a cidade recebia muitos tuberculosos para se convalescerem. Tornou-se uma fonte de renda para muitas famílias alugar um quarto para acolher estes doentes. As pensões ficavam repletas deles, mas os hotéis proibiam categoricamente sua hospedagem, exigindo “chapa” do pulmão.

O capelão, as irmãs Vicentinas e pacientes. Acervo Sanatório Naval
O capelão, as irmãs Vicentinas e pacientes. Acervo Sanatório Naval

Na década de 1930 surgiram avanços na cura da tuberculose com a invenção da vacina BCG e o fator clima na sua cura passou a ser questionado. Com a descoberta de um antibiótico na década de 1940 e a comprovação de sua eficácia ao longo das décadas de 1950 e 1960, o tratamento da tuberculose passou a ser ambulatorial, sem necessidade de internação, acarretando a desativação dos sanatórios. Ao longo dos anos, muitas mudanças no serviço de atendimento médico ocorreram no Sanatório Naval. Quando as duchas foram consideradas obsoletas, o prédio transformou-se em um centro cirúrgico para os praças, oficiais e familiares e obstétrico para as esposas dos militares. O hospital passou a atender a diversas patologias até o início dos anos noventa. O hospital depois de muitos anos desativado foi transformado em 2022 em um hotel.

Na imagem o hospital, a instalação das freiras Vicentinas e a capela. Acervo Sanatório Naval
Na imagem o hospital, a instalação das freiras Vicentinas e a capela. Acervo Sanatório Naval

Olavo Bilac chamou a tuberculose de voraz, pérfida e infame:E todas as idades lhe servem, e todas as carnes são agradáveis a seu paladar, carnes tenras de crianças, como as ressequidas de valetudinários. E como o cupim insaciável que tanto come as madeiras baratas como os fidalgos cernes de luxo, a tuberculose chupa a vida dos pobres e dos ricos, mina a existência dos banqueiros e a dos pés-no-chão.”


Janaína Botelho: roteirista, historiadora e professora

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Janaína Botelho – Serra News

A história do Sanatório Naval de Nova Friburgo

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