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Mão de Luva: O desbravador dos Sertões do Macacu

Em setembro de 1861, de passagem pela vila de Nova Friburgo, um cavalheiro que não quis se identificar deixou um interessante registro no Jornal do Commercio. Convidado pelo Sr. Carlos Antônio de Carvalho para uma soirée em sua residência, escreveu que na ocasião havia numerosa concorrência de fazendeiros importantes de Cantagalo, médicos e negociantes. Foi servido um opíparo jantar para 60 a 80 talheres com variadas iguarias e vinhos finos da ilha da Madeira, e das regiões vinícolas de Bordeaux e Champanhe, na França. Admirado com o fausto da soirée escreveu que “Uma festa dada com todo o luxo da mais refinada civilização em um lugar que há meio século era ainda um sertão quase desconhecido e inacessível, é certamente uma demonstração bem lisonjeira do progresso que o Brasil tem feito neste meio século, e por isto creio que ela merece uma menção em sua coluna.” (Jornal do Commercio, 21 de setembro de 1861)

Vista da mata virgem próxima a Friburgo, por Hermann Burmeister. Acervo BN
Vista da mata virgem próxima a Friburgo, por Hermann Burmeister. Acervo BN

O anônimo cavalheiro tem toda razão de estar admirado. O local onde bebia um refinado vinho de Bordeaux importado da França, meio século antes era um sertão ermo, sem a presença do homem branco e habitado apenas por indígenas, conhecido como Sertões do Macacu. O mapa de 1767 elaborado por Manoel Vieyra Leão, a pedido do vice-rei do Brasil, o Conde da Cunha, relatava ser esta região “Certão dos Índios Bravos”. Este despovoamento era proposital. Objetivava-se impedir o contrabando de ouro de Minas Gerais por meio da capitania fluminense para o Rio de Janeiro, proibindo assim a circulação entre a Zona da Mata Mineira e os Sertões do Macacu. No entanto, os três irmãos da família Henriques, liderado por Manoel Henriques, conhecido pela alcunha de Mão de Luva, penetraram naqueles sertões e iniciaram a garimpagem clandestina do ouro de aluvião nos córregos dos rios Grande e Negro. Mão de Luva extraiu o ouro de aluvião durante vinte anos, até a década de oitenta do século 18, quando o garimpo clandestino foi descoberto e ordenada a sua prisão e de seu bando por ordem do vice-rei D. Luiz de Vasconcellos e Souza.

No mapa, lê-se sertão ocupado por índios bravos. Acervo BN
No mapa, lê-se sertão ocupado por índios bravos. Acervo BN

Manoel Henriques, o Mão de Luva, nasceu na Freguesia de Santo Antônio de Ouro Branco, Bispado de Mariana, em Minas Gerais. Seu banho matrimonial, como era denominado o casamento naquela época, foi com Maria da Silva com quem teve filhos. Mão de Luva tinha aproximadamente 35 anos quando se embrenhou nos Sertões do Macacu com seus irmãos, esposa, filhos, escravos e vários companheiros para se aventurar no garimpo clandestino. Portava uma luva no lugar de uma das mãos que perdera quando se metera em uma briga e que lhe valeu a alcunha de Mão de Luva. Quem melhor jogou luz sobre a história do Luva do Xopotó, como era igualmente conhecido, foi o historiador Rodrigo Leonardo de Sousa Oliveira no trabalho acadêmico intitulado “Mão de Luva e Montanha, Bandoleiros e Salteadores nos caminhos de Minas Gerais, no século XVIII”. Mas antes de apresentar esta pesquisa vamos conhecer o que disse o juiz Cansanção de Sinimbu em meados do século 19, sobre este bandoleiro.

“…O território que faz hoje a comarca de Cantagalo(…) foi descoberto alguns anos antes do fim do século passado, por um célebre contrabandista de ouro, da província de Minas Gerais, conhecido por (…) Mão de Luva. Esse homem, que se tinha feito notável nos trabalhos de mineração, vivia por isso em guerra aberta com as autoridades de Minas. Cansado de lutar, mas sempre movido pelo desejo de descobrir minas auríferas, em cuja exploração pudesse satisfazer a cobiça do precioso metal, abandonou aquela província para correr novas aventuras em terras incultas e desconhecidas. (…) no sítio atualmente denominado Porto Velho do Cunha. Aí, por meio de jangada feita com tronco de árvores, atravessou o mesmo rio(Paraíba) e depois, afastando-se dele, guiado pelo conhecimento prático que tinha de terrenos auríferos, foi pôr o termo no lugar em que hoje está edificada a vila de Cantagalo.

Nesse sítio o terreno circundado de altos morros toma a configuração de uma pequena bacia, e que se diria, uma grande bateia feita pela natureza para guardar o ouro expelido dos montes adjacentes pela lavagem das chuvas anuais, foi o lugar escolhido por Mão de Luva para dar começo às suas explorações. (…) Assim viveu por algum tempo, desconhecido e ignorado, ele e o bando que o tinha acompanhado, até que, já senhor de grande quantidade de ouro explorado, foi mister dar valor ao mesmo, buscando-lhe um mercado. (…) Mão de Luva conseguiu abrir caminho de suas ignotas regiões auríferas até o Rio de Janeiro. (…) Não tardou muito, porém, que a notícia da descoberta dessas minas, até então desconhecidas, chegassem aos ouvidos das autoridades, em razão de sua propalada riqueza.

Depois de conhecer a localização dos contrabandistas, bem como o caminho de acesso ao local, as autoridades remeteram forças em sua perseguição. (…) Mão de Luva, porém, foi capturado pela traição de um de seus companheiros que, de acordo com a escolta que o espreitava, derramou durante a noite a pólvora da escorva das espingardas dele e dos outros, e assim, inviabilizou-os para a resistência. (…) Depois da prisão de Mão de Luva, mandou o Governo estabelecer nas minas de sua descoberta uma lavra de mineração sob a direção de um superintendente do ouro, sendo este o primeiro estabelecimento de Cantagalo e o começo da povoação. (Vila de Nova Friburgo, 4 de abril de 1851).

Rio Pomba atravessado por Mão de Luva. Autoria Hermann Burmeister. Acervo BN
Rio Pomba atravessado por Mão de Luva. Autoria Hermann Burmeister. Acervo BN

Como os autos do juízo da Intendência Geral do Ouro do Rio de Janeiro, que processou o grupo por contrabando, não foi localizado até o momento conhecemos algo sobre Mão de Luva através do processo de inquisição instaurado para apurar suas práticas heréticas. De acordo com o historiador Souza Oliveira, iniciou-se em 1781 uma instrução pelo Tribunal de Inquisição de Lisboa por crimes de heresia e apostasia. No ano seguinte, o Reverendo Bartolomeu da Silva Borges, comissário do Santo Ofício, foi designado pelos Inquisidores Apostólicos de Lisboa para fazer uma diligência no Rio de Janeiro contra Manoel Henriques. Nos autos da inquisição foi processado juntamente com seu companheiro, Agostinho de Abreu Castelo Branco. Este último fora acusado de utilizar uma partícula consagrada, pedra d’ara, óleos sagrados e outras relíquias tiradas de várias capelas por onde havia estado.

Já Mão de Luva na instrução do processo foi acusado de cometer desacato ao Santíssimo Sacramento por trazer uma partícula ao pescoço que dizia ser consagrada, dando-lhe poderes sobrenaturais. O tribunal desejava saber se ao portar a dita partícula consagrada ao pescoço, ignorava o que fazia ou se estava em seu perfeito entendimento. Igualmente em que igreja ou capela o acusado comungava, com que intuito cometera tão “horroroso desacato” e por fim, se quando o fizera, estaria embriagado de vinho que lhe pertubasse o juízo. As testemunhas detidas no cárcere por determinação do Tribunal de Inquisição, de um modo geral, declararam que o acusado fazia uso de arte diabólica e possuía trevos e orações os quais o ajudava a fazer artes e valentias.

Floresta na margem do rio Paraíba. Autoria Jean-Baptiste Debret. Acervo BN
Floresta na margem do rio Paraíba. Autoria Jean-Baptiste Debret. Acervo BN

José da Silva Pereira, viúvo, com 38 anos de idade, que vivia de sua lavoura de mandiocas para fazer farinha, testemunhou sob o juramento dos Santos Evangelhos que conhecia muito bem Manoel Henriques, o Luva de Xopotó, com quem conviveu por sete meses em um descoberto de ouro. Ouviu da boca de Manoel Henriques que numa ocasião um governador de Vila Rica quisera ver uma de suas façanhas. Montara em um cavalo passando por cima de algumas casas e caindo em um valo. Do valo, tornou a saltar por cima das casas e se apresentou ao governador que se achava acompanhado de muitas pessoas. Ouviu dizer de Joaquim Lopes que Manoel Henriques trazia consigo uma partícula consagrada, mas ignorava como a adquirira e de que capela ou oratório era originária. Quando comungava escondia-a no bolso, declarou.

Vale da Serra do Mar. Autoria Jean-Baptiste Debret. Acervo BN
Vale da Serra do Mar. Autoria Jean-Baptiste Debret. Acervo BN

Antônio Barbosa Matos, casado, 33 anos de idade, morador no caminho das Minas Gerais no lugar chamado Cebolas, Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Inhomerim, que vivia da lavoura de milho e feijão, prestou juramento junto aos Santos Evangelhos. Declarou que conhecia muito bem  Manoel Henriques, chamado o Mão de Luva, com o qual andou dois anos pelo mato. Nas Minas Gerais gostava de jactar-se que tinha feito várias façanhas com os seus cavalos, que pareciam sobrenaturais. Ouviu da boca de Mão de Luva que praticava magia com seus cavalos apelejadores e descrevia várias proezas que os animais faziam. Ouviu alguns fatos que pareciam não serem naturais, declarando que só poderia ser feito por arte diabólica.

Mapa da província do Rio de Janeiro. Acervo BN
Mapa da província do Rio de Janeiro. Acervo BN

Antônio Barbosa Matos disse que Mão de Luva havia prometido que o ensinaria a ler e que lhe daria uma bolsa. Indagando de que serviria a dita bolsa, Mão de Luva deu-lhe a instrução de trazê-la consigo quando arranchasse e procurasse por um pau. A referida bolsa entraria dentro do pau e naquele caminho ninguém o incomodaria. Antes de seguir viagem perguntasse ao pau, onde se encontrava a dita bolsa, se poderia ou não partir. Se a bolsa não saísse do pau, não deveria prosseguir. Se saísse, seguramente poderia seguir viagem. Declarou não saber se ele trazia consigo partícula consagrada. Assistiu Mão de Luva comungar, pois ele tinha suspeita de que andaria com o demônio e na ocasião recebeu o sacramento.  

João de Abreu Macedo, casado, 53 anos de idade, carpinteiro, sob o juramento dos Santos Evangelhos disse que conhecia muito bem Manoel Henriques, intitulado o Mão de Luva do Xopotó, com quem andou cinco meses no mato em um descoberto de ouro e há três anos estavam separados. Declarou que ouviu de boca do próprio Manoel Henriques muitas façanhas que tinha feito em Minas Gerais. Certa feita levou vinte presos para a cadeia de Vila Rica, auxiliado apenas por um camarada, sem que nenhum deles fugisse. Possivelmente os presos aos quais se refere a testemunha eram escravos fugitivos, pois costumava-se recompensar com dinheiro quem apresasse cativos. Em outra feita, cercado por oficiais que queriam prendê-lo, não puderam fazê-lo porque a uns acutilava, a outro matou e fugiu sem ser preso. Este episódio não só ouviu da boca do dito Manoel Henriques, como de um crioulo que o acompanhava chamado Simão.

Segundo João de Abreu Macedo, tudo quanto Mão de Luva fazia não era natural, mas auxiliado por alguma arte diabólica. Metia-se em tudo com intrépido valor. Declarou que quando Mão de Luva se metia em algum perigo logo tirava da algibeira uma bolsa e a laçava ao pescoço. Valendo-se dela se metia em todos os perigos seguro de que nada o ofenderia, o que ele testemunha por vezes presenciou. Não sabia dizer se trazia consigo partícula consagrada. Mão de Luva prometia suas enfeitiçadas bolsas para as pessoas se livrarem dos perigos.

Referência às Minas de Cantagallo, 1830. Acervo BN
Referência às Minas de Cantagallo, 1830. Acervo BN

Finalmente vejamos o que registraram em seus diários os viajantes europeus no século 19 sobre o destino de Mão de Luva e o seu bando. Segundo o mineralogista John Mawe foram condenados à prisão perpétua e banidos para a África. Já o diplomata suíço Johann Jakob Von Tschudi relata que Mão de Luva teria sido deportado para o Rio Grande do Sul, onde falecera em 1824 ou 1825. Ele descartava a possibilidade de seu enforcamento ou do seu degredo para a costa africana. De acordo com Cansanção de Sinimbu, Mão de Luva foi conduzido para o Rio de Janeiro e desterrado para o Rio Grande do Sul onde morreu cerca de 25 anos depois. Segundo Sinimbu “Este foi o prêmio que teve o homem que, por sua audácia e temeridade, descobriu novas minas de ouro para o Estado e, ainda, as riquíssimas terras de cultura onde, presentemente, se exportam por ano, quantidade acima de 400.000 arrobas de café.”

Assista também o documentário:


Janaína Botelho – Serra News

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