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Procissão, comida, sanfona e cavalhada: as festas religiosas no passado

Diferentemente dos dias de hoje, a religião e as festas religiosas tinham muito mais importância na vida cotidiana de nossos antepassados. Era um tempo em que se benzia de quebranto, participava-se com frequência da ladainha, do terço, da novena, do setenário, da via-sacra e das procissões. Havia os mestres-de-rezas, as rezadeiras e até os papa-missas. A mais importante forma de sociabilidade eram as festas religiosas. O dia de procissão era um dia de grande alegria, de lufa-lufa, de movimento e de agitação. Enchiam-se as ruas de povo, penduravam-se às janelas magníficas colchas de seda, de damasco de todas as cores, armavam-se coretos ou adornavam os existentes. Era de bom tom enfeitar as portas e as janelas nos dias de procissão. Múltiplos elementos se imbricavam.  Missas, ladainhas e procissão associadas ao mundanismo dos jogos, das folias, de comidas, músicas, danças e fogos de artifício.

As festas religiosas no passado revelavam e afirmavam as posições sociais. Nas procissões só pegavam nas varas do pálio autoridades e distintos cavalheiros. O andor do santo era conduzido pelos irmãos da Irmandade do Santíssimo Sacramento composta por figuras ilustres da cidade. No livro “Dom Casmurro” de Machado de Assis há uma disputa entre os personagens José Dias e Pádua para carregar a vara do pálio na procissão do Santíssimo Sacramento aos moribundos. A distinção especial do pálio era cobrir o vigário e o sacramento. Quem não conseguia levava a tocha, posição secundária.

Jean Baptiste Debret 1835. Acervo BN
Jean-Baptiste Debret, 1835. Acervo BN

A festa do Divino Espírito Santo era uma das prediletas na província fluminense. De acordo com o livro “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, a celebração do Divino na Corte de D. João VI iniciava nove dias antes da data definida no calendário para que tivessem lugar as novenas e as folias. Durante os nove dias que precediam a ascensão do Espírito Santo era tradição sair pelas ruas um rancho de meninos de 9 a 11 anos, vestidos de pastores. Trajavam sapatos cor de rosa, meias brancas, calção da cor do sapato, faixas à cintura, camisa branca de longos e caídos colarinhos, chapéus de palha de abas largas ou forrados de seda, enfeitados com grinaldas de flores e laços de fita. Os meninos tocavam pandeiro, machete e tamboril. Caminhavam formando um quadrado e no centro ia o imperador do Divino, um menino com idade inferior a 9 anos, vestido de casaca e calção de veludo verde, meias de seda, sapatos afivelados, chapéu de pasta e um enorme emblema do Espírito Santo ao peito. Caminhava pausadamente e com ar grave. Acompanhava o préstito uma banda de música de escravos barbeiros. Eram precedidos e cercados pelos irmãos da Irmandade do Santíssimo Sacramento portando bandeiras e outros emblemas. A população corria pressurosa para ver a folia e os irmãos aproveitavam para recolher esmolas entre os transeuntes e de casa em casa. Enquanto o rancho caminhava tocavam os escravos barbeiros; quando paravam os pastorzinhos tocavam e cantavam algo como “O Divino Espírito Santo é um grande folião, amigo de muita carne, muito vinho e muito pão.”

Henry Chamberlain Rio de Janeiro 1822. Acervo Brasiliana Itau.
Henry Chamberlain, Rio de Janeiro, 1822. Acervo Brasiliana Itaú.

Categorias profissionais costumavam se apresentar nas procissões. Há um curioso registro igualmente no livro “Memórias de um Sargento de Milícias” de uma procissão de ourives. Segundo o autor os ourives eram os que mais chamavam a atenção e isto porque um rancho de baianas caminhava na frente da procissão. Este rancho era formado por um grande número de negras vestidas à moda da Bahia que dançavam nos intervalos do “Graças a Deus”.  As baianas portavam saias ornadas de rendas que chegavam pouco abaixo do meio da perna. Usavam uma camisa cuja gola e mangas eram também ornadas de rendas. No pescoço tinham um cordão de ouro ou um colar de corais. As mais pobres usavam colares de miçangas. Ornavam o cabelo com turbantes que davam o nome de trunfas, formado por um grande lenço branco muito teso e engomado. Calçavam chinelinhas de salto alto. Sobre a vestimenta portavam uma capa de pano preto e nos braços portavam argolas de metal simulando pulseiras. Notem que tanto as baianas como os pastorzinhos passaram a ser alegorias do carnaval.

Acácio Ferreira Dias em “Terra de Cantagalo” nos informa que a Semana Santa acarretava a vinda de numerosos romeiros a Cantagalo. Vinham legiões de fiéis das cidades vizinhas em trens especiais de Cordeiro, Macuco, Bom Jardim e Nova Friburgo. De quarta a sexta-feira as ruas transbordavam de povo. Os mafuás, carroceis, jaburus e corridas em sacos atraíam a multidão para o largo da igreja. No coreto do Parque Euclides da Cunha tocavam bandas musicais como a Fraternidade Cordeirense, Pena de Ouro, de Macuco, Euterpe e Campesina de Nova Friburgo e a banda da Polícia Militar de Niterói. No sábado a Flor de Maio e a Sete de Setembro rompiam a alvorada tocando marchas. Os judas pendurados nos postes ou nas portas das casas eram malhados pela garotada armada de varapaus. No domingo havia a procissão de ascensão do Senhor.

O memorialista João Nicolau Guzzo no livro “O Sobrado” descreve a festa de Santo Antônio em Cantagalo. Acesa a fogueira, a população se fartava com quentão, batata doce, aipim e pé-de-moleque. Ao som de sanfonas e tambores havia danças caipiras, casamento na roça e a subida de balões que deixavam pastos e plantações queimados por conta desta tradição. Já na festa de São João havia o encontro de quadrilhas. Na festa de São Pedro, padroeiro da cidade, a animação era maior em razão da população adventícia. Como ocorre também em outros municípios na celebração do padroeiro, além de virem pessoas de outras cidades, havia a presença de ex moradores que não perdiam a festa do patrono da cidade. Era o momento de reencontrar velhos amigos. Na Festa do Coração de Jesus senhoras cantagalenses ofereciam um banquete aos velhinhos do Asilo da Velhice Desamparada. Outro evento de Cantagalo era a Festa dos Carecas, mais laico do que religioso, que surgiu para chamar a atenção de turistas porque as festas da igreja vinham perdendo a animação e a frequência.

Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive Rio de Janeiro 1841. Acervo IMS.
Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive, Rio de Janeiro, 1841. Acervo IMS.

O ardor religioso levava alguns fiéis a extremos. Nilza Viégas no livro “Itaocara dos meus Sonhos” relata que numa procissão de Corpus Christi o Sr. Pedro, muito religioso, sempre gostava de levar à frente uma cruz. Certa vez passando a procissão pela rua alguns homens se mantiveram sentados e não tiraram o chapéu em respeito ao préstito. O Sr. Pedro indignado com este comportamento bateu com a cruz que carregava na cabeça de um deles. Em razão deste acontecimento as procissões passaram a sair de madrugada quando não haviam bares abertos e nem muita gente nas ruas. Folias de Reis e Cavalhadas eram desdobramentos do fervor religioso. Itaocara tinha a tradição da Cavalhada nas festas religiosas. A Cavalhada tem origem em Portugal que recria torneios medievais representando a batalha entre cristãos e mouros. No Brasil, registram-se desde o século 17 e acontecem geralmente durante a festa do Divino.

Na festa do Divino Espírito Santo em Nova Friburgo era distribuída pela manhã carne fresca aos pobres. Havia durante o dia missa solene e à noite ladainha, leilão de prendas, retretas das bandas de música, balões e fogos de artifício. Dias antes saía o festeiro com a bandeira do divino angariando esmolas para a festa. Numa destas arrecadações registrou-se a doação, além de dinheiro, de cabritinhos, frangos, galinhas, leitoas, novilhos e objetos de ouro. Em junho preparava-se os folguedos das festas de Santo Antônio, São João e São Pedro. Era o período das fogueiras, das canas, do cará com melado e da batata-doce. Divertimentos profanos como barracas de comida, música, dança e leilões complementavam as ladainhas, procissões e missas. A festa de Santo Antônio era realizada na Praça do Suspiro, em frente à capela dedicada ao orago. Na véspera havia a ladainha. Na alvorada do dia do santo uma banda musical percorria a cidade despertando os devotos com peças de seu repertório. Às onze horas era celebrada a missa e subia à tribuna um pregador que eloquentemente fazia o panegírico do glorioso taumaturgo. Às cinco horas da tarde as famílias participavam da procissão com crianças vestidas de anjos. Juncava-se de folhagens e flores a frente das casas por onde passava o préstito.

Nova Friburgo cerca de 1905. Acervo Castro.
Nova Friburgo, cerca de 1905. Acervo Castro.

Um arraial de barraquinhas ornadas com flores, folhagens, bandeiras e galhardetes de várias nacionalidades eram armadas na Praça do Suspiro. As bandas musicais animavam a festa. No festim de Santo Antônio os romeiros tiravam a sorte e esbaldavam-se com doces, café, refrescos, patos, perus, leitoas, carneiros, vitelas, carás e melado. Ardiam fogueiras assando-se canas e batatas doces. Os meninos corriam pela multidão atirando bichas e busca-pés no ar ou em direção às moças que corriam esbaforidas, com medo de queimarem os vestidos novos. Armava-se um coreto no largo da praça e ao som de uma banda de música apregoava-se o leilão das prendas doadas pelos fiéis. Durante a festividade a população afluía à capelinha levando promessas e donativos ao santo. Atroavam nos ares girândolas de foguetes e subiam balões de todas as cores e tamanhos com dísticos e figuras alegóricas. As comunidades portuguesa e italiana auxiliavam na organização da festa de Santo Antônio, glória de Portugal que lhe foi o berço e honra da Itália que lhe guardava o túmulo. Moças solteiras acendiam velas ao santo casamenteiro pedindo por um bom casamento: “Santo Antônio milagroso, das moças casamenteiro. Dai-nos bons maridinhos, bonitinhos com dinheiro.” (O Friburguense, 21/06/1891)

São João gozava em Nova Friburgo de especial veneração por ser o padroeiro do município. Às seis horas da manhã uma estrondosa salva de girândolas de foguetes e sonoros toques do sino do campanário da Matriz despertavam os friburguenses anunciando o memorável dia do protetor da cidade. Na procissão a imagem do santo era conduzida sobre o andor e transportada pelos irmãos da Irmandade do Santíssimo Sacramento vestidos em opas de seda e carregando círios acesos. Jovens vestidas de anjos espalhavam flores pelas ruas principais da cidade, já cobertas por folhagens de murtas. A frente das casas por onde passava a procissão eram ornamentadas com grandes colchas adamascadas escarlates, azuis e amarelas, além de ramos de flores. As senhoras das casas aguardavam na janela a procissão passar saudando o santo padroeiro. A seguir vinha a missa onde se cantava o Te Deum e um orador expunha no púlpito a vida gloriosa do santo. Eram soltos balões, dançava-se e cantava-se ao som da viola ao redor da fogueira. Perus, patos, vitelas, carneiros e leitoas pejavam nos fornos para se comer com cará e melado. Em meados do século 20, José Pires Barroso transformou o Festival de Quadrilhas uma das mais importantes atrações turísticas de Nova Friburgo. As quadrilhas concorriam em garbo, ritmo, conjunto geral, sinhazinha, caipira e melhor marcador. As moças com chita e fita nas tranças mendigavam cheias de dengo tostõesinhos que eram colocados aos pés de Santo Antônio. Os rapazes com bigodes feitos de rolha queimada aplicavam remendos na roupa em estilo cubista, portando chapéus de palha.

Nas tradicionais festas religiosas alguns santos eram patronos dos municípios a exemplo de Cantagalo que tem como padroeiro São Pedro e Nova Friburgo São João Batista. Quanto às festas dos padroeiros temos o interessante registro do memorialista Godofredo Guimarães Tavares. Nascido em Conceição de Macabu em 1915, o autor nos traz preciosas informações sobre a festa da padroeira de sua cidade natal no livro “Imagens de Nossa Terra”. Na festa do município realizada no dia 08 de dezembro sob a égide da Imaculada Conceição, as ruas eram enfeitadas com arcos de bambu, bandeirinhas coloridas e iluminadas por candeeiros de gomos de bambu abastecidos de querosene. Carrosséis giravam e realejos disputavam o barulho com a ruidosa algazarra da garotada. Serenatas eram realizadas na véspera da festa e a população animada participava das danças, das cantorias e dos jogos. Além das serenatas riquíssimas alegorias da Folia dos Santos Reis espalhavam música e cores pelas ruas da cidade. De longe vinham repentistas para enfrentar o prodigioso pendor poético de Chico Jerônimo e Manoel Paraná. Os desafios iniciavam à tarde e rompiam na madrugada. Não faltava o sanfoneiro fazendo gemer seu fole acompanhado por um violão. Às cinco horas da manhã uma salva de 21 tiros anunciava o raiar do dia festivo e duas bandas da cidade tocavam dobrados na alvorada. Como em toda festa do padroeiro vinham participar do evento habitantes de outras cidades. Mocinhas com vestidos um pouco acima dos tornozelos chegavam acompanhadas dos irmãos e dos pais. Estes últimos vinham de paletó e gravata com a calça arregaçada até o meio das canelas trazendo encambadas e penduradas no ombro as botinas rinchadeiras. Além da missa solene, de pagar promessas por graças alcançadas e da procissão havia as brincadeiras como subida no pau-de-sebo, o quebra-boião e a corrida com um ovo na colher.

Thierry Freres 1839 Rio de Janeiro. Acervo BN.
Thierry Frères, 1839, Rio de Janeiro. Acervo BN.

Como em Itaocara havia em Conceição de Macabu a tradição das cavalhadas. Os cavaleiros empunhando lanças e montados em lindos cavalos faziam piruetas e exibiam suas habilidades. O que mais despertava entusiasmo provocando aplausos frenéticos era o desafio do cavaleiro sair em disparada e tentar retirar com a lança uma argolinha presa a um poste. O que conseguia esta proeza doava a argolinha a um amigo ou a alguma mulher eleita de seu coração. O ponto alto das tradicionais festas religiosas no passado eram as queimas de fogos de artifício com repiques dos sinos das igrejas e a gritaria alegre da gárrula meninada.

Janaína Botelho – Serra News

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