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A revitalização da Fábrica Ypu: novo cartão postal de Nova Friburgo

O presente artigo objetiva colocar minhas impressões sobre uma visita que fiz à fábrica Ypu no mês de dezembro de 2023. Para conhecer mais sobre esta indústria têxtil, deixo ao final um link de um artigo que escrevi para o SERRANEWS. Em 1912, o imigrante alemão Maximilian Wilhelm Bogislav Falck instalou em Nova Friburgo (RJ) uma indústria têxtil para produção de artigos de passamanaria. Um ano antes, Peter Julius Ferdinand Arp inaugurara uma fábrica no mesmo ramo, a Rendas Arp, para fabricação de rendas e em 1925 Otto Siems instalou a fábrica Filó, para a produção de tule. Ambos eram igualmente imigrantes alemães. Estes empresários eram vistos como representantes do “primoroso povo germânico” e responsáveis por colocar Nova Friburgo em uma nova era, de cidade veranista passou a ser industrial. Maximilian Falck juntamente com outros sócios deu início a fabricação de passamanarias em um galpão no seu sítio de veraneio, em uma das margens do rio Santo Antônio. Sob a razão social de Maximilian Falck & Cia iniciou a produção com 14 teares importados da Alemanha. Com o passar dos anos, de um modesto galpão o seu parque industrial atingiu 32.000 m² (ou 44.000m²) de área construída.

Vista da chaminé do parque industrial da Ypu. Acervo pessoal.
Vista da chaminé do parque industrial da Ypu. Acervo pessoal.

Na visita que fiz ao complexo de pavilhões da Ypu sente-se realmente o ambiente de uma fábrica. Diferentemente do Espaço Arp, outrora fábrica Rendas Arp, a Ypu mantem-se exatamente como era desde a construção de seu complexo industrial. Não fosse a chaminé mantida no Espaço Arp, mal saberíamos que foi no passado uma indústria têxtil. O administrador da Ypu é Moair Lemgruber que foi desenhista durante muitos anos na Rendas Arp e responsável pelo setor de desenvolvimento de produtos bordados. Ele aluga uma sala no complexo Ypu e tem uma confecção de artigos de cama e mesa.  Percorri as instalações da Ypu guiada por Natasha Gomes, designer de interiores e por Robson Sarke, artista plástico, que trabalham na revitalização do espaço.

Moair Lemgruber, responsável pela administração do complexo Ypu. Acervo pessoal
Moair Lemgruber, responsável pela administração do complexo Ypu. Acervo pessoal

No complexo de pavilhões todas as ruas estão sinalizadas, nos orientando onde funcionavam as seções da fábrica. Boa parte dos pavilhões estão ocupados por confecções de moda íntima, de cama e mesa, de vestuário, por uma academia, muitos prestadores de serviço e uma cervejaria na outrora loja da fábrica. Localizei uma máquina raríssima, uma das primeiras utilizadas na produção, uma preciosidade do seu acervo. Maximilian Falck faleceu em 1944, deixando três herdeiros, Maximilian Falck Junior, Edith e Cecília Falck. No entanto, quem administrava a fábrica eram os Cleff, e os herdeiros seguiram o conselho de Maximilian Falck de entregar a gestão a Charles Émile Cleff. Tudo leva a crer que foi Emil Cleff, como era conhecido, com sua genialidade artística na criação de produtos e conhecimento do mercado Europeu, quem colocou a Ypu no panteão das melhores indústrias têxteis do Brasil. Os bustos de Maximilian Falck e Emil Cleff irão para uma praça que será construída no complexo.

Os bustos de Emill Cleff e Maximilian Falck. Acervo pessoal
Os bustos de Emill Cleff e Maximilian Falck. Acervo pessoal
Uma preciosidade, máquina importada pela Ypu da Alemanha em 1912. Acervo pessoal
Uma preciosidade, máquina importada pela Ypu da Alemanha em 1912. Acervo pessoal

Encontra-se pela fábrica um grande número de catálogos que surpreende pela multiplicidade de itens que foram produzidos. Nos catálogos, amostras com imensa variedade de passamanarias, rendas, etiquetas, acessórios e outros artefatos que demonstram a diversificação de sua linha de produção. Vamos conhecer o que produzia a fábrica Ypu. Na década de 1930 fabricava passamanarias (galões, elásticos, sianinhas, soutaches, franjas, cadarços e demais artigos de armarinhos), rendas, linhas, ligas de seda masculinas e femininas, suspensórios, braçadeiras, atacadores para pijamas, ombreiras, cordões, barbante para embrulhos, cintos de couro e de elástico masculinos e femininos, fivelas, carteiras de couro, bolsas etc. A variedade de estampas, cores e tamanho de cada um dos itens é impressionante. Para ficar em apenas um exemplo, em um catálogo de passamanaria observei que o trancelim de Rayon, de algodão mercerizado e de poliéster texturizado tinham muitas cores e larguras variadas. As linhas tinham também uma gama imensa de cores.

Os catálogos revelam o grande número de artigos fabricados pela Ypu. Acervo pessoal
Os catálogos revelam o grande número de artigos fabricados pela Ypu. Acervo pessoal

Em uma caixa que localizei constatei que a Ypu fornecia fio penteado 100% algodão para a Hering. Em um quadro foi afixado um tecido exibindo os primeiros pontos feitos na fábrica no ano de 1975, pela punchadora da firma Zangs, que fazia o programa dos bordados. O responsável era Roland Roth, executivo da fábrica. Este nome não me era estranho pois sabia que ele também trabalhara na Rendas Arp. Percebi que funcionários especializados em bordados prestavam serviço na Ypu e Rendas Arp. O catálogo de amostras de etiquetas foi outra especialidade.  Boa parte da clientela era de empresas estrangeiras como a Nestlé (para uniformes), Pierre Cardin Paris, Valentino (Roma), Parkland International, Levi Strauss Jeans, Bûcheron France, Porsche, Cartier, Chelapidus Boutique Paris, Ferrari, US Air Force, etc.

No quadro os primeiros pontos de bordados feitos em 1975. Acervo pessoal
No quadro os primeiros pontos de bordados feitos em 1975. Acervo pessoal

O que achei instigante foi que a Ypu produzia os mesmos itens da Rendas Arp como fios de algodão e bordados e também fabricava filó, como a fábrica Filó. O administrador Moair Lemgruber esclareceu que havia mercado para todas estas indústrias e que não concorriam entre si. Ele trabalhou na Rendas e na Ypu e afirmou que o mercado absorvia toda a produção destas indústrias têxteis. De fato, todas elas exportavam para os EUA, Europa e continente africano. A Ypu ultrapassou a fronteira da atividade fabril têxtil e produzia artefatos de couro como carteiras, cintos e chegou a fabricar bolsas para grifes internacionais. Para tanto curtia o próprio couro de seus produtos e fabricava os metais que utilizava nos acessórios.

Ao contrário da Rendas Arp, a Ypu não teve alteração na sua planta. Acervo pessoal
Ao contrário da Rendas Arp, a Ypu não teve alteração na sua planta. Acervo pessoal

Com a nova administração verifiquei uma revitalização do complexo industrial. Inicialmente restauraram a fachada com um graffiti de bordado na torre. O bordado foi inspirado em um desenho original da Ypu, confeccionado com uma aplicação para bordar uma peça de organza. Foi feita a tradução deste desenho para uma aplicação de guipir, conjugada com o ponto “mosca alemã”, dialogando com as janelas e portas da torre que têm este design. O responsável pela arte foi Moair Lemgruber que estudou na Suíça se aprimorando nesta técnica de desenho. A estampa do bordado assim como da “mosca alemã” na torre foi executada pelo artista plástico Robson Sark, que tem trabalhos na ONG Start Upcycling na África do Sul e Berlin e em diversos murais no Rio de Janeiro.

A designer de interiores Natasha Gomes auxilia na administração. Acervo pessoal
A designer de interiores Natasha Gomes auxilia na administração. Acervo pessoal

Outra novidade na fachada foi o desafio de colocar o relógio da fábrica em atividade. Antigamente usava-se um relógio de pêndulo, que ficava na área administrativa. Gerava mecanicamente um movimento para fazer um pulso elétrico que movimentava todos os outros relógios da fábrica pontualmente. Foi mantido o mesmo sistema de pulso e a mesma máquina original. No entanto foi preciso ser feita uma nova máquina de geração de pulso. O responsável pela nova engrenagem colocando o relógio em atividade foi Marcelo Porto. A restauração do relógio foi feita por Robson Sark.

O artista plástico e tatuador Robson Sark pintou a torre e restaurou o relógio. Acervo pessoal.
O artista plástico e tatuador Robson Sark pintou a torre e restaurou o relógio. Acervo pessoal.

Por fim, o relógio restaurado traz uma homenagem. A atual administração do complexo Ypu colocou o sobrenome de operários que ajudaram no desenvolvimento da empresa. Os nomes de família estão impressos no entorno de todo o relógio!  Vale a pena uma visita noturna para ver a imponente torre revitalizada. A noite é possível ver o relógio aceso dos bairros Catarcione e Cordoeira “e agora é um ponto de referência para quem entra e sai da cidade”, declara Natasha Gomes. Visitas guiadas pelo complexo ainda não estão abertas, mas trata-se de um projeto para o futuro. As lojas estão abertas para compras no horário comercial.

Quem chega na cidade se depara com a bela imagem da fábrica Ypu. Acervo Ypu.
Quem chega na cidade se depara com a bela imagem da fábrica Ypu. Acervo Ypu.
Homenagem aos primeiros operários estampados no relógio. Acervo Ypu
Homenagem aos primeiros operários estampados no relógio. Acervo Ypu

Fábrica Ypu: de galpão a um complexo industrial

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