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O cantagalense Joaquim Naegele e a história da Campesina Friburguense

No regime monárquico, a falta de autonomia das Câmaras Municipais e dos governos provinciais gerou uma insatisfação na política local. Como em todo o país, o movimento republicano se desenvolvia em Nova Friburgo e nas manifestações havia a necessidade de músicos para animá-las. A Sociedade Musical Campesina foi criada em razão desta necessidade e contexto. Liderados pelo major Augusto Marques Braga, um grupo de republicanos, a exemplo de Fioravanti Andre Martinoya, do coronel Galeano Emílio das Neves, Pedro Eduardo Salusse, Eduardo Eugênio de Castro e Antônio José de Souza Cardoso fundaram em 06 de janeiro de 1870, a Sociedade Musical Beneficente Campesina Friburguense. O major Marques Braga foi o presidente durante os primeiros l5 anos. Cedeu a casa de vivenda da Chácara do Paraíso, de propriedade da família, para funcionar provisoriamente a sua sede.

Major Augusto Marques Braga, o primeiro presidente. Acervo Campesina
Major Augusto Marques Braga, o primeiro presidente. Acervo Campesina

O primeiro uniforme e bandeira da banda pertenceram ao Colégio Freese. O inglês John Henry Freese(1784-1866) estabeleceu o Instituto Colegial de Nova Friburgo, em março de 1841, adquirido posteriormente pelo coronel Galeano das Neves, professor de latim e música nesse colégio. Como os uniformes e a bandeira tinham a sigla CF, de Colégio Freese, o nome Campesina Friburguense foi adotado para aproveitar o material do extinto educandário. Os novos estandartes usados à frente da banda foram confeccionados pela senhora Adelaide Marques Braga, filha do major Marques Braga e esposa de Vicente de Moraes, Secretário de Finanças do Estado do Rio de Janeiro.

O cachorro na foto era o mascote da banda 1873. Acervo Campesina
O cachorro na foto era o mascote da banda, 1873. Acervo Campesina

O primeiro maestro a reger a banda foi o catedrático do Conservatório de Música do Rio de Janeiro, Presciliano José da Silva, mineiro de São João Del Rey, formado pelo Conservatório de Música de Milão, na Itália. Além da música, as artes dramáticas foram incorporadas às atividades da Campesina Friburguense. A direção da sociedade musical abriu subscrição e realizou uma série de espetáculos e leilões para arrecadar fundos, objetivando a construção de um teatro. O primeiro passo para o tão sonhado projeto foi a aquisição de um terreno que pertencia a Pedro Eduardo Salusse, na rua gal. Câmara, hoje Augusto Spinelli. Ao dar início às obras, infortúnios sucessivos interromperam a consecução do projeto. Primeiro foi o falecimento na Itália do seu associado e fundador Fioravanti André Martinoya, seguida da elevação extraordinária dos preços de material de construção e salário dos operários.

Presciliano Jose da Silva primeiro maestro. Acervo Campesina
Presciliano José da Silva, primeiro maestro da Campesina. Acervo Campesina

Não podendo dar continuidade à edificação do teatro, os associados deliberaram colocar o prédio à venda. Por exigência da diretoria da Campesina, ficou consignada na escritura a cláusula de não poder a propriedade ser voltada para outro fim que não as artes dramáticas. Foi a solução que os associados da Campesina encontraram para, de forma simbólica, realizar a consecução de seu projeto. Em 1892, o teatro, ainda inacabado, foi adquirido por Amâncio José Jordão, um dos mais importantes fazendeiros do município de Sumidouro. Finalizada a obra, o teatro foi inaugurado em 19 de novembro de 1895, com a ópera de Verdi “Um Baile de Máscaras”, da Companhia italiana Verdini & Rotoli.

Sociedade Musical Beneficente Campesina Friburguense, 1910. Acervo Campesina
Sociedade Musical Beneficente Campesina Friburguense, 1910. Acervo Campesina

O nome originário do teatro Vitor Hugo foi substituído por Dona Eugênia, em homenagem à esposa do proprietário, Eugênia dos Santos Jordão. Anos mais tarde, a sede da Campesina foi neste mesmo teatro, que passou a ser chamado de Cine Teatro Leal. Nesse local, além do teatro amador e profissional ocorriam bailes, reuniões políticas e sociais, lutas de boxe e exibições cinematográficas. A Campesina, assim como sua coirmã Euterpe Friburguense, esteve sempre presente tanto nos momentos de alegria como festas, casamentos, aniversários, homenagens, leilões, soirées, carnavais, circos, passeios campestres, procissões religiosas e representações teatrais, como nos de tristeza, a exemplo dos funerais. Das soirées elegantes ao mais popular dos bailes, não havia um momento em que não houvesse a presença da “furiosa” abrilhantando o evento.

Destaque para o uniforme militar da Campesina ano de 1925. Acervo Campesina
Destaque para o uniforme militar da Campesina, ano de 1925. Acervo Campesina

O prefeito César Guinle doou um terreno a Campesina na rua Leuenroth onde foi construída a nova sede com o auxílio dos amigos da banda e de seus músicos, inaugurada em 15 de novembro 1952. Na ocasião sua sede era na Rua Campesina, atual Fernando Bizzoto. O maestro Joaquim Antônio Langsdorff Naegle teve uma participação relevante na trajetória da Campesina e colocou-a no panteão das melhores sociedades musicais do país. Nascido em 02 de junho 1899, no distrito de Santa Rita do Rio Negro, hoje Euclidelândia, município de Cantagalo, Naegle era filho de Eduardo Hermano Naegle e Elvira Frederica Langsdorff.

Naegle teve uma participacao relevante na Campesina
Naegle teve uma participação relevante na Campesina. Acervo Campesina

Joaquim Naegele desde a infância executava todos os instrumentos de sopro, tendo a sua formação musical orientada pelo maestro Antônio Francisco Braga, professor do Instituto Nacional de Música e autor do Hino à Bandeira Nacional. Casado com Hercy, três de seus filhos Kuntz, Dalgio e Wagner seguiram a profissão de músico. Joaquim Naegele foi compositor e arranjador de um repertório de mais de trezentas músicas de diversos estilos. Adaptou para a Campesina trechos de óperas, marchas militares e cerimoniais, polcas, mazurcas e valsas de célebres compositores. Na década de 1950, defensor da campanha getulista “O Petróleo é nosso”, compôs o dobrado sinfônico Ouro Negro. Membro do Partido Comunista, no período em que esteve preso compôs o dobrado “A Voz do Cárcere”.

Na antiga sede na Rua Campesina, atual Fernando Bizzoto, 1950. Acervo Campesina
Na antiga sede na Rua Campesina, atual Fernando Bizzoto, 1950. Acervo Campesina

Em 08 de novembro de 1925, a convite de Salustiano Sauerbrom estabeleceu domicílio em Nova Friburgo assumindo a regência da Campesina, à qual consagrou 25 anos de sua vida. Nos anos de 1940, fundou a orquestra Apollo Jazz, fazendo sucesso nos clubes friburguenses e nas cidades vizinhas. Mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro e em 1952 fundou a Sociedade Musical Flor do Ritmo, da qual saíram intérpretes e compositores renomados, como Elza Soares, Zeca Pagodinho, Leny de Andrade, Anísio Silva e Bezerra da Silva. Retornou à Campesina Friburguense em 1965, regendo-a por mais cinco anos, período profícuo em arranjos, composições de dobrados e na formação de novos músicos. Nessa última fase de sua vida, fundou a Banda-Escola Alegria do Ritmo. Sua última apresentação na Campesina foi em 06 de janeiro de 1984, na festa de 114 anos da sociedade musical. Joaquim Naegle faleceu em 03 de março de 1985, com 85 anos de idade.

Apresentacao da Sociedade Musical Campesina 1968. Acervo Campesina
Apresentação da Sociedade Musical Campesina, 1968. Acervo Campesina

A Campesina tem o privilégio de ter a confecção de sua bandeira feita por Elviro Ernesto Martignoni (1854-1929), um grande artista italiano que se estabeleceu em Nova Friburgo no final do século 19. Martignoni executou pinturas no Palácio Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, do barão de Nova Friburgo, hoje Museu da República; na chácara do Chalé, hoje Nova Friburgo Country Club; e na catedral São João Batista. A bandeira está preservada no centro de memória na sede. Nas últimas décadas, a Sociedade Musical Campesina ampliou seus horizontes e se tornou orquestra sinfônica. Passou a ser considerada sociedade de utilidade pública municipal, estadual e Patrimônio Histórico Cultural do Estado do Rio de Janeiro.

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