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As epidemias e o lazareto em Nova Friburgo

Pandemias e epidemias estiveram presentes na história da humanidade. Trazendo a questão para Nova Friburgo, o município estava próximo do centro político e econômico do país no primeiro e segundo Reinado, o Rio de Janeiro onde grassavam epidemias de varíola, conhecida também como bexiga, cólera e a partir da segunda metade do século 19 da febre amarela. Quanto à varíola existia a vacina, mas em relação a febre amarela se desconhecia a etiologia da doença, não se sabia que era provocada pela picada de um mosquito. Acreditava-se que as pessoas eram contaminadas pelo ar, aspirando miasmas. As epidemias intermitentes de febre amarela, durante o verão, levava as elites a se deslocarem para Petrópolis e Nova Friburgo, permanecendo seis meses na região serrana até que cessasse a canícula.

Não bastassem as epidemias, Nova Friburgo acolhia doentes tuberculosos que procuravam no clima de altitude sua convalescência, de acordo com recomendação médica. O município era administrado pela Câmara Municipal pois a figura do prefeito surgiu apenas em 1916.  Na sessão da Câmara de 1° de outubro de 1878, o vereador e médico Carlos Eboli propôs algumas medidas profiláticas para que a varíola não se alastrasse no município. Além da vacinação obrigatória, inclusive dos escravizados, era preciso alugar uma casa fora do povoado para onde seriam removidos os afetados pela varíola. Pela primeira vez se cogitava o isolamento de pessoas infectadas por doenças infectocontagiosas. A proposta foi unanimemente aprovada fazendo a Câmara as despesas necessárias para a remoção e o tratamento dos doentes.

Câmara Municipal de Nova Friburgo. Acervo internet
Câmara Municipal de Nova Friburgo. Acervo internet

Além do isolamento em um lazareto, outra medida era o cordão sanitário. O que se percebe é que as pessoas ricas e morigeradas eram autorizadas a permanecer confinadas em sua residência se tratando, desde que respeitassem o cordão de isolamento, ou seja, a família do varioloso não poderia ter qualquer contato com os moradores locais. Neste caso, os cordões sanitários eram colocados em torno das casas dos variolosos, que estariam sujeitos à multa ou a prisão os que dela saíssem desrespeitando as posturas municipais. Os pobres, denominados de “indigentes” e acometidos de varíola eram encaminhados ao lazareto juntamente com a sua família. Fazia-se a seguir a desinfecção da casa do varioloso e das residências da vizinhança. Utilizava-se o recurso da caiação das casas. Um cordão sanitário era feito para evitar a comunicação com o lazareto, com praças acampadas fazendo a vigilância. Para o cumprimento das medidas higiênicas trabalhavam o delegado da Junta de Higiene, fiscais da Câmara, praças do Destacamento Policial e o delegado de polícia.

Medidas secundárias eram tomadas em períodos epidêmicos. Em certa ocasião, a Câmara oficiou à Estrada de Ferro de Cantagalo proibindo que comboios de escravizados vindos da Corte fizessem parada na estação de Nova Friburgo. Em abril de 1891 eclodiu uma epidemia de febre amarela na cidade de Cantagalo e os vereadores simplesmente abandonaram o município. De acordo com o Jornal do Commercio de 07 de abril de 1891, o povo desamparado reuniu-se e nomeou uma comissão de socorros públicos para acudir aos enfermos, enterrar os mortos, cuidar da desinfecção das casas e disponibilizar um lazareto. Apenas três médicos acudiam a população e cuidavam da subscrição arrecadando dinheiro para auxiliar os indigentes. A população socorria-se mutuamente. Centenas de cadáveres eram transportados em carroças e sepultados em valas comuns por voluntários, policiais e detentos. O jornal O Friburguense na coluna “Alerta Ainda!” de 19 de abril de 1891 cobrou da Câmara um cordão sanitário para impedir que a população cantagalense se deslocasse para Nova Friburgo.

Possivelmente em razão desta atemorizante epidemia de febre amarela ocorrida em Cantagalo, onde Nova Friburgo tinha estreita conexão pela linha férrea, os vereadores na sessão de 25 de setembro de 1891 aventaram a possibilidade da construção de um casarão que serviria de lazareto definitivo para os afetados por doença infectocontagiosa. A comissão de saúde pública e de higiene escolheu um local distante do centro da cidade, em um platô a 20m de altura sobre o leito da estrada, no arraial das Duas Pedras. Foi adquirido ainda um terreno de Augusto Marques Braga, que fazia divisa com a área do futuro lazareto, para o cemitério, evitando-se assim o transporte dos defuntos até o cemitério do núcleo urbano. Inicialmente os vereadores promoveram a arrecadação de donativos de particulares para a edificação do lazareto, as denominadas subscrições, mas sendo insuficiente pleitearam auxílio financeiro ao presidente do Estado (governador). Conseguiram a verba e foi transferida ao Estado a responsabilidade e direção das obras. Como na sessão de 30 de novembro de 1893 ainda se cobrava do governo do Estado uma solução sobre a finalização do lazareto, presume-se que a obra foi concluída em 1894, assim como a compra de utensílios e alfaias.

A pandemia de gripe espanhola no ano 1918 teve impacto em Nova Friburgo durante alguns meses, ocorrendo muitas mortes. Em Nova Friburgo entre 800 e 1000 pessoas foram contaminadas, conforme registro no Diário dos padres Jesuítas do Colégio Anchieta de 25 de novembro de 1918, mas se desconhece o número de óbitos. Nesta ocasião, o lazareto em Duas Pedras pode ter sido utilizado. Provavelmente em razão desta pandemia, em 28 de abril de 1918 foi criada a Associação de Caridade de Nova Friburgo. Com doações da população foi possível a edificação de um estabelecimento pio para os desafortunados, a Santa Casa de Misericórdia, localizada na esquina da Av. Friburgo com a Rua Dona Umbelina, atuais Av. Comte Bittencourt e Rua Augusto Cardoso. Era prefeito Gustavo Lira da Silva e a Câmara Municipal votou um aumento no imposto sobre o consumo de aguardente, revertendo metade em benefício da Santa Casa.

Santa Casa de Misericórdia de Nova Friburgo. Acervo internet
Santa Casa de Misericórdia de Nova Friburgo. Acervo internet

Possuímos relatos de efetivo uso do lazareto em Duas Pedras numa epidemia de tifo ocorrida aproximadamente no final da década de 1930. De acordo com o pesquisador Adilson Donato Batista em “História da Igreja de São Roque”, esta epidemia fez muito mais vítimas em Nova Friburgo do que a gripe espanhola. O bairro de Olaria foi o mais afetado em todo o município. Não é por acaso que uma capela dedicada a São Roque, padroeiro dos doentes, protetor contra a peste e doenças contagiosas foi construída no bairro e inaugurada em 1° de março de 1940. O arrabalde de Olaria era repleto de sítios onde se plantava legumes, hortaliças e flores comercializadas no centro da cidade. Nesta epidemia um caminhão com toldo verde passava recolhendo os doentes em colchonetes e transportando-os ao isolamento no lazareto de Duas Pedras, conhecido pela população como “casarão”. A visita era proibida e raramente os adoentados sobreviviam.

Capela de São Roque, erguida ao padroeiro de doenças contagiosas. Acervo Donato Batista
Capela de São Roque, erguida ao padroeiro de doenças contagiosas. Acervo Donato Batista

De acordo com registros orais colhidos por Donato Batista serviam uma sopa tão rala e aguada no lazareto, que os doentes fugiam frequentemente para comer banana e goiaba nos arredores, ainda que sob a ameaça dos cães de guarda. Os doentes ficavam sob a vigilância de policiais que evitavam as fugas e igualmente aproximações de curiosos ou de parentes dos enfermos. O lazareto parece ter sido mais um depósito de doentes do que efetivamente um local de tratamento, já que trabalhavam apenas voluntários, não sendo vistos médicos no local. Nas raras visitas autorizadas, os parentes portavam máscaras, não podiam entrar no casarão e o doente os encontrava na área externa.

Em 1940 Renyr Sardou, com 7 anos de idade, moradora de Olaria foi diagnosticada por um médico como tendo contraído tifo e foi providenciada sua remoção ao lazareto de Duas Pedras. Ali permaneceu por 4 meses sem contato com a família já que era proibida a visita. Recuperada, ninguém providenciou o seu retorno e a criança não sabia o caminho de volta para sua casa. Ficou auxiliando a dar banho nos doentes e aprendeu a aplicar injeção. Certo dia um morador de Olaria veio saber notícias de suas duas filhas internadas. Ambas já haviam morrido e enterradas no cemitério do casarão sem indicação do sepultamento. O pai desconsolado reconheceu Renyr se oferecendo para levar a menina para casa.

Quando chegaram no bairro de Olaria a população se assustou ao ver Renyr, dada como morta, vestindo um camisolão branco do hospital. Sua cabeça estava repleta de piolhos. Teve os cabelos raspados e a cabeça lavada com querosene. Este foi um dos relatos colhidos por Donato Batista sobre o cotidiano do lazareto. Com a descoberta do vetor da febre amarela e a erradicação da varíola no Brasil em 1973, a utilização do lazareto foi sendo gradativamente desprezada. A sua localização isolada, como evidentemente se desejava, dificultou o emprego do casarão pela administração municipal. Segundo Donato Batista já foi abrigo dos maquinistas da Estrada de Ferro Leopoldina, escola, sede da Associação de Moradores de São Lázaro e o prefeito Amâncio Mário de Azevedo o teria utilizado para amparar desabrigados.

O prefeito Johnny Maycon(de máscara) cresceu no Lazareto. Acervo Secretaria de Comunicação.
O prefeito Johnny Maycon (de máscara) cresceu no Lazareto. Acervo Secretaria de Comunicação.

O arraial das Duas Pedras foi crescendo, notadamente pela concentração de imigrantes italianos. O vilarejo foi contemplado pelos padres Jesuítas do Colégio Anchieta com a capela do Imaculado Coração de Maria, São Pedro e São Paulo inaugurada no dia 7 de junho de 1914. O entorno do casarão foi sendo gradativamente ocupado pelas classes populares com a construção de casas e mesmo sobre o terreno do cemitério. O casarão acabou dando nome a localidade de “Lazareto” onde somente se tem notícias na imprensa, de registros policiais como tráfico de drogas e homicídios. O que fora outrora um isolamento estratégico de portadores de doenças infectocontagiosas se transformou em um apartheid social. Como o atual prefeito Johnny Maycon nasceu e cresceu no Lazareto, invocando uma memória afetiva determinou a realização de obras de restauração e requalificação do casarão do século 19, objetivando levar um centro cultural e de apoio social para esta comunidade carente. A história do lazareto nos faz revisitar e refletir, como nossos antepassados lidavam com as epidemias, situação esta em que saímos muito recentemente com a covid-19.


Janaína Botelho: roteirista, historiadora e professora

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