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Peça teatral celebra os 90 anos do Grêmio Português de Nova Friburgo

No mês de junho o Grêmio Português de Nova Friburgo completou 90 anos. Para escrever este artigo fiz uma reflexão sobre os imigrantes portugueses nos quais havia realizado algumas pesquisas. Evidentemente não explica a imigração portuguesa na formação social de Nova Friburgo, mas contribui com alguma informação. No período em que o país era Colônia, o português tinha livre trânsito sendo o único autorizado a imigrar para o Brasil. A partir da Independência iniciou-se uma política pública de imigração na segunda metade do século 19, para substituir a mão-de-obra escravizada por colonos europeus de diversas nacionalidades. Neste contexto, os portugueses, depois dos italianos foram os que imigraram em maior número. Os sertões do Macacu, que hoje compreende os municípios da região serrana fluminense foi povoado por mineiros e portugueses da Ilha da Madeira e Açores.

Foi para as terras frias de Nova Friburgo, atual distrito do Campo do Coelho, que se dirigiu o português Antônio José Mendes (1822-1921), originário dos Açores. Era caixeiro viajante e tornou-se muito próspero, proprietário da importante fazenda Rio Grande. Os Mendes organizaram um espaço para comercialização dos produtos da lavoura dos agricultores das terras frias, que ficou conhecido como “barracão dos Mendes”. Esta iniciativa deu origem a construção do CEASA, o maior mercado de produtores rurais da agricultura familiar que comercializa hortaliças e verduras de Nova Friburgo, Teresópolis e Sumidouro.

Família Mendes instalada nas terras frias. Arte de Regina Lobianco e acervo de Sônia Mendes
Família Mendes instalada nas terras frias. Arte de Regina Lobianco e acervo de Sônia Mendes

Havia em Nova Friburgo portugueses exercendo desde profissões como caixeiros e ferroviários até um segmento de abastados proprietários e negociantes, a exemplo do português Antônio Lopes Sertã (1851-1894) originário da vila Sertã. Trabalhava como mascate e vinha periodicamente a vila de Nova Friburgo carregado de mercadorias em lombo de burro, antes da vinda do trem em 1873. Comercializava seus produtos no empório do rico português Joaquim Tomé Ferreira, na rua gal. Argolo, atual Alberto Braune. Sertã se apaixonou pela filha de Ferreira, Elisa, e casaram-se constituindo uma das mais tradicionais famílias da cidade. Algumas vilas no centro eram de propriedade dos Sertã pois tinham como prática construir casas geminadas para obter renda com aluguéis. A propósito, as vilas são uma prática cultural tipicamente portuguesa. O que caracterizou os Sertã foi a caridade. Raul Sertã doou o terreno para a construção da Santa Casa de Misericórdia e um outro para o clube Nova Friburgo Futebol Clube, no intuito de promover este esporte e onde foi construído um imenso estádio no coração da cidade.

Uma das vilas em Nova Friburgo, que os portugueses construíram para obter renda com aluguéis 
Uma das vilas em Nova Friburgo, que os portugueses construíram para obter renda com aluguéis

Na rua gal. Câmara, atual Augusto Spinelli ficava o teatro Dona Eugênia, inaugurado em 21 de fevereiro de 1895, com apresentações de óperas italianas, bem como do teatro português. No final do século 19 existe o registro da vinda a Nova Friburgo da Companhia Dramática do português Caetano Alves. Na temporada foram representadas as seguintes peças: Tipos da Atualidade ou O Barão da Cutia Direito, Como se fazia um Deputado, Por Linhas Tortas, Amor por Anexins, A Morgadinha de Val-Flor, O Fiacre 226 ou o Guia da Montanha, Gaspar Cacete, Uma Criada Impagável, Remorso Vivo, O Fidalgo Ladrão ou Os Pupilos do Escravo, A Estátua de Carne, Fidalgos e Operários ou A Tomada da Bastilha, A Honra de um Taverneiro, Mosquitos por Cordas, Theresa ou A Orpha de Genebra, Aimée ou O Assassino Por Amor, O Pescador de Baleias, Um Drama no Alto Mar, O Poder do Ouro, 29 ou Honra e Gloria , João, O Corta Mar, O Paralytico ou A Envenenadora, Os Dois Sargentos, A Grande Avenida, O Anjo da Meia-Noite, A Senhora está deitada, Os Estranguladores de Paris, Os Milagres de Santo Antonio,  O Castelo do Diabo, As Duas Orfãs, O Poder do Ouro, Dalila, Chapéu de Palha de Italia, A Martyr, O Gale´ por Amor,  Moços e Velhos, Os 50 Contos ou O Tio Padre, Maria Joanna ou A Mulher do Povo, Os Dois Proscritos ou A Restauração de Portugal em 1640, Os Direitos da Mulher, A Emancipadora, Amor por Annexins, Santinha de Carne e Osso, Veneno dos Bórgias, Estudante Alsaciano, O Caiporismo e O Homem da Máscara Negra. O curioso é que algumas peças têm dois títulos completamente diferentes.

O mais conhecido de todos os imigrantes lusitanos é Antônio Clemente Pinto, o primeiro barão de Nova Friburgo. Nasceu em 6 de janeiro de 1795, em Ovelha de Marão, Santa Maria de Aboadela. Tudo indica que tenha imigrado para o Brasil para trabalhar no comércio, como tantos outros portugueses. Requereu uma sesmaria em 1819, em Cantagalo, objetivando a exploração do ouro de aluvião. Quando percebeu que a garimpagem não era um negócio lucrativo voltou-se para o plantio do café, que se tornava uma commodity de exportação do país. No entanto, foi com tráfico de escravos que o barão de Nova Friburgo fez fortuna. Além de fazendas de café em Cantagalo, o barão possuía propriedades em Nova Friburgo. Os Clemente Pinto tiveram o reconhecimento dos friburguenses por terem trazido a linha férrea, que acarretou imenso desenvolvimento na região serrana.

Antônio Clemente Pinto, o primeiro barão de Nova Friburgo. Acervo BN
Antônio Clemente Pinto, o primeiro barão de Nova Friburgo. Acervo BN

Alguns indivíduos se dirigiam a Nova Friburgo para se curar da tuberculose, pois o clima das montanhas era recomendado pelos médicos para a convalescença desta doença. Possivelmente foi o caso do endinheirado português José Antônio Marques Braga, estabelecido no Brasil. Sua família era proprietária do luxuosíssimo castelo de Méridon, na França. Marques Braga se instalou em 1843 em Nova Friburgo. A suíça Madame Salusse durante a estadia na vila do bom partido conseguiu casar o rico português com sua filha Clorinda Francisca Josephina Salusse. Já no início do século vinte, o português Antônio Alves Pinto Martins, nascido em 1° de julho de 1862 no Minho, veio para Nova Friburgo onde adquiriu a chácara do Relógio. Pinto Martins tinha como atividade econômica na chácara a produção e comercialização de laticínios como leite, queijo e manteiga; charcutaria de linguiças defumadas; frutas frescas e em compotas; verduras e legumes; café e o mel e vinho que produzia. A comercialização era feita no “Mercado Villa Amélia”, dentro de sua propriedade e que deu origem a uma feira na localidade, a mais importante da cidade, a feira da vila Amélia.

O imigrante português Antônio Pinto Martins. Acervo Áurea Almeida
O imigrante português Antônio Pinto Martins. Acervo Áurea Almeida

Quem nunca tomou uma bronca no bar do português Mário Babo? Proprietário do bar Central, um namoro indecente, um pé na cadeira e logo o cliente tomava um carão. Porém, ninguém deixava de frequentar o bar do Seu Mário, mesmo depois de uma repreensão. Nascido em Penafiel veio para Nova Friburgo em 1951, de porte da denominada “Carta de Chamada”, condição exigida pelo governo para imigrar para o Brasil. Trabalhou inicialmente no bar América, de propriedade de seu irmão, que até hoje funciona na rua Monte Líbano. Foi Mário Babo quem trouxe o chopp para a cidade e quem não se lembra de seus apreciados sorvetes de abacaxi, pistache, ameixa e creme holandês de fabricação caseira?

Mário Babo, à esquerda foi quem trouxe o chopp para Nova Friburgo. Acervo família Babo
Mário Babo, à esquerda foi quem trouxe o chopp para Nova Friburgo. Acervo família Babo

O bar América pertencia a José Coelho Babo, nascido no Porto e que veio com 17 anos para o Brasil. Se instalou em Nova Friburgo na década de 1950, adquirindo o bar América de seu irmão Justino Coelho Babo. No passado, este estabelecimento comercial era na realidade um restaurante, ponto de encontro dos agricultores de Amparo, que lá realizavam os seus negócios. Outrora, de Amparo até o centro da cidade o caminho era pelo bairro das Braunes, por isto a parada na rua Monte Líbano. José Coelho Babo vendeu o bar América e montou o restaurante Colombo, em frente à estação de trem. Logo, o Grêmio Português tem muito a comemorar com os laboriosos portugueses que escolheram Nova Friburgo para se estabelecer e deitar raízes. Porém, antes desta agremiação outras associações a antecederam.

Em 03 de março de 1895 foi criada em Nova Friburgo a Associação Portuguesa de Beneficência, sob a presidência de Manoel João de Araújo, conceituado negociante. A cidade passou a ter a representação do vice-cônsul português, mas divergências entre os compatriotas acarretou o rompimento de um grupo dissidente intitulado “os portugueses independentes”, que passou a fazer oposição à Beneficência Portuguesa. No entanto, ambas associações sucumbiram uma após a outra. Finalmente foi criado o Grêmio Português e o periódico O Friburguense de 18 junho de 1933 noticiou a sua criação no dia 11 daquele mês: “Mas os elementos que agora de reuniram são outros muito diferentes, não só no preparo intelectual, mas também na posição social…” A primeira sede do Grêmio Português funcionou na praça Dermeval Barbosa Moreira e como as outras associações possuía uma escola de ensino gratuito para os filhos de seus membros. Mudou para a atual sede na av. Euterpe Friburguense no início da década de 1960.

Antiga sede do Grêmio Português à direita na foto, no segundo pavimento. Acervo Márcio Gonçalves
Antiga sede do Grêmio Português à direita na foto, no segundo pavimento. Acervo Márcio Gonçalves

Para celebrar os 90 anos do Grêmio Português, a Cia de Arte Jane Ayrão vai representar a história do português Samuel Antônio dos Santos, responsável pela construção da capela de Santo Antônio, na praça do Suspiro. Maestro da Marinha Portuguesa, um intenso temporal colocou o navio onde viajava em risco de naufrágio. Durante o sinistro Samuel dos Santos, devoto de Santo Antônio prometeu que abandonaria a Marinha no primeiro porto que desembarcasse e construiria uma capela em tributo ao orago. Cumpriu a sua promessa e no dia 13 de junho de 1884 foi inaugurada a capelinha de Santo Antônio. O espetáculo “A Promessa” será apresentado pela Cia de Arte Jane Ayrão no dia 30 de setembro, no GPH, no Cônego. Além das contracenas, a parte musical apresenta fado, ópera e valsa. O figurino assinado pelo estilista Virgílio Santos está impecável. Os atores do núcleo lusitano receberam a assessoria da portuguesa Cristina Vale para reproduzirem de forma perfeita o sotaque de nossos patrícios.

Peça teatral celebra os 90 anos do Grêmio Português de Nova Friburgo
Cia de Arte Jane Ayrão em frente ao painel da capela de Santo Antônio da peça A Promessa.

Janaína Botelho: roteirista, historiadora e professora

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Janaína Botelho – Serra News

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