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Fazenda Sant’Anna: dos barões de Cantagalo ao clã Monnerat

A história da Fazenda Sant’Anna tem início com José de Souza Brandão, o primeiro Barão de Cantagalo. Como todo homem de cabedais obteve uma sesmaria, em Cantagalo, justificando ter posses e meios para cultivar, condição fundamental para obter o benefício de ganhar terras do governo. Até o momento sabe-se muito pouco sobre o primeiro barão. O seu filho Augusto de Sousa Brandão, que se forma médico herda a Sant’Anna e adquire o título de segundo Barão de Cantagalo.

Coronel da Guarda Nacional, exerceu as funções de juiz de paz, vereador e chefe do Partido Liberal. Casa-se com a viúva Francisca Candida de Gouveia, com quem tem dois filhos, ampliando o seu patrimônio com o acréscimo de propriedades trazidas pela esposa. Na Fazenda Sant’Anna cultivava diversas espécies de café como o java, o maragojipe, liberia, marta e amarelo. Nesta ocasião a propriedade tinha uma dimensão de 800 alqueires, com um milhão e quinhentos mil pés de café e o trabalho realizado por aproximadamente 300 escravizados.

Fazenda Sant’Anna no século 19. Acervo Renato Monnerat.
Fazenda Sant’Anna no século 19. Acervo Renato Monnerat.

Na década de 1880, o segundo Barão de Cantagalo solicita um empréstimo de 450 contos de réis, dando a sua propriedade como garantia. Três anos depois, mesmo não saldando a dívida anterior, faz um novo empréstimo. Para o pesquisador Clélio Erthal sua situação econômica se agravou com o fim do trabalho escravo, já que o mesmo imediatamente após a abolição ingressou no partido republicano, culpando o regime monárquico pela sua miserável situação. Faleceu deixando a Sant’Anna bem endividada. Ainda de acordo com Erthal, o filho do segundo barão, Augusto Brandão Filho solicitou um empréstimo a José Heggendorn Monnerat para saldar as dívidas do pai. José Monnerat não concedeu o empréstimo, pois sabia que indo a propriedade ao leilão poderia adquiri-la por preço abaixo do mercado. E foi o que aconteceu. A firma exportadora de café Monnerat & Cia, de José Monnerat arrematou-a no ano de 1900, em leilão em praça pública. Esta propriedade foi doada para o sobrinho e genro de José Monnerat, Sebastião Monnerat Lutterbach.

Sebastião Monnerat Lutterbach, sentado ao centro. Acervo Julio Lutterbach.
Sebastião Monnerat Lutterbach, sentado ao centro. Acervo Julio Lutterbach.

Sob a sua gestão, a Fazenda de Sant’Anna além do café passou a cultivar lavoura branca, cana-de-açúcar, a fabricar farinha de mandioca, fubá de milho, polvilho e em seu engenho de moenda de cana, rapadura, melado e aguardente. Possuía criação de gado bovino da raça indiana guzerá, carneiros e suínos da raça inglesa. Investiu em uma fábrica de laticínios produzindo manteiga e requeijão com a marca Fazenda Sant’Anna. Sua produção era transportada em carros de boi e tropas de mulas para ser escoada pela Estrada de Ferro, que parava na Chave de Sant’Anna, a 4 quilômetros de distância da sede.

Casa-sede da Fazenda Sant’Anna. Acervo pessoal.
Casa-sede da Fazenda Sant’Anna. Acervo pessoal.

O médico Renato Monnerat, tetraneto de Sebastião Monnerat Lutterbach adquiriu a Sant’Anna de terceiros para manter a propriedade na família. Atualmente a extensão da fazenda é bem inferior ao que fora no passado, em razão de sucessivos desmembramentos. Pouco restou do imenso complexo produtivo do passado. Originalmente a casa-sede era ligada a uma edificação com dois pavimentos que fazia conexão com o prédio do engenho. Permaneceram apenas a casa-sede e o engenho sendo demolida a edificação central. A casa tem dois pavimentos, de estilo eclético. As fachadas são apoiadas sobre colunas de alvenaria que exibem a base, e capitéis dão à residência leveza e elegância. Na composição da varanda, um gradil de ferro batido entremeado por delgadas colunas em ferro fundido sustenta o telhado. As paredes de alvenaria são decoradas com pinturas e afrescos. A sala ainda conserva o papel de parede importado da França bem como a pintura original da barra com motivos florais sobre um fundo imitando madeira.

O historiador suíço Martin Nicoulin entre os Monnerat. Acervo pessoal.
O historiador suíço Martin Nicoulin entre os Monnerat. Acervo pessoal.

O prédio do engenho que abrigava, no térreo, a casa de farinha e polvilho e, no pavimento superior, as oficinas foram restauradas e transformadas em dois belíssimos salões. Um destes salões recebeu o nome do historiador suíço Martin Nicoulin, que escreveu o antológico livro “A Gênese de Nova Friburgo”. O simpático e carismático historiador foi até Sant’Anna inaugurar o Centro de Memória em sua homenagem. Espirituoso fez questão de tocar nos grãos de café expostos simbolicamente no Centro de Memória exaltando que foi este produto que fez a fortuna de alguns colonos suíços.

Engenho do Centro de Memória da Fazenda Sant’Anna. Acervo pessoal.
Engenho do Centro de Memória da Fazenda Sant’Anna. Acervo pessoal.

Este centro tem como acervo o maquinário e instrumentos antigos de trabalho da fazenda como o engenho de moenda de cana, o moinho de fubá, o descaroçador de feijão, as imensas caixas de madeira onde era depositado o açúcar em forma de rapadura, instrumentos de arado, entre outras preciosidades.

Os suíços em almoço na Fazenda Sant’Anna. Acervo pessoal.
Os suíços em almoço na Fazenda Sant’Anna. Acervo pessoal.

O elo que Renato Monnerat mantêm com a história de sua família o incentivou a receber no bicentenário de Nova Friburgo, os suíços que vieram para a festividade em um almoço na Sant’Anna. Contou inclusive com a presença do embaixador da Suíça no Brasil, Andrea Samademi. Realizei a cobertura desta visita e chamou-me a atenção o assombro dos suíços quando souberam da dimensão de 800 alqueires desta propriedade no passado. Cumpre destacar que cabem 142 Suíças no território brasileiro. O prefeito de um cantão da Suíça exclamou: “C’était plus grand que mon Canton”, ou seja, era maior que o meu cantão. Neste momento pude entender porque os colonos suíços abandonaram suas datas de terras de 1.080.000 m², para ser dividida por três famílias, em busca das terras devolutas e férteis de Cantagalo.

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Janaína Botelho – Serra News

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