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Imigrantes suíços: a migração para Cantagalo

Jean-Baptiste Debret (1768/1848), pintor, desenhista, escritor e professor francês, veio ao Brasil, em 1817, para a cidade do Rio de Janeiro, como integrante da Missão Artística Francesa. Essa Missão estabeleceu, no Rio, a Academia Imperial de Belas Artes. Em 1831, retornou à França. Lá publicou o livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (Paris: Firmin Didot Frères, 1839). O Brasil, em particular a Província do Rio de Janeiro, teve as impressões de um intelectual francês do século 19 sobre aspectos da natureza, dos seres humanos que habitavam a região e da sociedade brasileira em geral e fluminense daquele século. As suas telas revelaram a aristocracia, a população em geral, índios e escravos no seu dia a dia.

Nesse livro, Debret tem um capítulo – Colonie suisse de Canta-Gallo – no qual narra a sua vivência nas terras de Cantagalo – São Pedro de Canta-Gallo -, que abrangiam os ‘Sertões de Macacu” ou “Sertões de índios bravios”. Nessas terras, D. João VI implantou a Colônia Nova Friburgo, mediante acordo com o Cantão de Fribourg, na Suíça, a fim de alojar suíços com habilidades nas artes da agricultura, da construção e demais artesãos, indispensáveis ao desenvolvimento regional. Logo depois, a Colônia foi transformada no município de Nova Friburgo, desmembrado das terras de Cantagalo. Dessa Colônia migraram para Cantagalo, a partir de 1821, inúmeros colonos suíços, atraídos por terras agricultáveis, em particular às margens do Rio Paraíba do Sul.

A saga de Jean Abram Frauches, um dos colonos suíços que migraram para Cantagalo, em 1821.
A saga de Jean Abram Frauches, um dos colonos suíços que migraram para Cantagalo, em 1821.

Debret descreve a vida dos emigrantes suíços nas terras da Colônia Nova Friburgo e São Pedro de Canta-Gallo, localizada num vale entre montanhas. Em imensa caravana, desembarcaram das naus em Macacu. Depois de uns doze dias de marcha, subindo uma serra por trilhas estreitas e íngremes, chegaram à Colônia os primeiros colonos suíços por volta de dezembro de 1819. As casas eram simples, sem piso de madeira ou cimento. Onde cabiam quatro, ficavam outros tantos. Condições de vida precária, sem instalações sanitárias ou cozinha. O vale era regado por um rio, dividido em riachos, que contornavam o sopé de alguns montes florestados, dominados por várias cadeias de montanhas. Uma surpresa para Debret.

Em 1995, por iniciativa do então prefeito de Nova Friburgo, com apoio da Fundação Biblioteca Nacional, tomei conhecimento da tese defendida pelo professor Martin Nicoulin na Universidade de Fribourg, Suíça, publicada no Brasil, sob o título A Gênese de Nova Friburgo – Emigração e Colonização Suíça no Brasil – 1817/1827. Um marco para a descoberta das origens de Nova Friburgo e dos colonos suíços e seus descendentes que contribuíram – e ainda contribuem – para o desenvolvimento socioeconômico da região serrana e de nosso país de modo geral. Consegui identificar o patriarca de minha família – Louis Abraham Fauchez. O sobrenome de seus filhos foi transformado em Frauches.

No início de 2020, Martin Nicoulin visitou Cantagalo, a convite do proprietário da Fazenda Santana, o médico Renato Monnerat Lutterback. Ali recebeu várias homenagens. Esteve na sala com seu nome, por iniciativa de Renato Monnerat, que faz parte do prédio do engenho agora cuidadosamente restaurado. O então assessor de Cultura de Cantagalo, Matheus Câmara, e o professor Gilberto Cunha presentearam Nicoulin com uma bandeira do município de Cantagalo. O professor João Bosco proporcionou uma visita guiada com o historiador pela Praça João XXIII, à Igreja do Santíssimo Sacramento e a outros pontos históricos da cidade. Uma justa homenagem a um historiador da colonização suíça em Nova Friburgo.

O pesquisador e professor suíço, Martin Nicoulin, que ofereceu aos suíços e brasileiros a história da emigração suíça para a Colônia Nova Friburgo, em Cantagalo.
O pesquisador e professor suíço, Martin Nicoulin, que ofereceu aos suíços e brasileiros a história da emigração suíça para a Colônia Nova Friburgo, em Cantagalo.

Mas o espírito indômito de um cantagalense – Henrique Bon -, médico, escritor e pesquisador, trouxe-nos o livro Imigrantes – A saga do primeiro movimento migratório organizado rumo ao Brasil às portas da independência. Uma relíquia da história dos colonos suíços, com detalhes indispensáveis à identificação de nossos ascendentes. O próprio Nicoulin reconhece a importância dessa obra: “Henrique Bon, este grande historiador, este infatigável pesquisador, desvenda os mistérios e nos concede o resultado de seu imenso trabalho. Graças ao encontro de novos documentos e com uma grande paciência, ele comenta, corrige e completa a lista de fundadores”.

O historiador Henrique Bon registra, na introdução ao seu livro, que os colonos suíços, “aqui chegando, a despeito de uma tendência inicial para as relações endogâmicas, realizaram como toda a humanidade sempre o fez, as mesmas trocas gênicas com as populações à volta, reiterando a mobilidade espacial que nos fez deixar a África e povoar o resto do mundo”. E prossegue: “Desta forma, questões anteriormente arraigadas em nossa cultura, como conceitos de cunho racial, estão hoje destinadas ao mesmo lugar da ciência e da história no qual depositamos o geocentrismo, os miasmas, ou a terra plana e com bordas abissais que tanto assombravam os primeiros navegadores”. Enfim, a miscigenação, a mistura de cores e sabores, que nos fez ser assim como somos.

As diversas origens dos negros que atuaram no desenvolvimento do Brasil, na visão de Debret.
As diversas origens dos negros que atuaram no desenvolvimento do Brasil, na visão de Debret.

Em seu volumoso e indispensável livro sobre a história dos colonos suíços, Henrique Bon detalha essa trajetória memorável, as precárias embarcações, desde a saída da terra natal até a Colônia Nova Friburgo e, mais tarde, à migração para povoações próximas, como Bom Jardim, Duas Barras, Carmo, Cantagalo e outras plagas nas Minas Gerais e Espírito Santo. Essas, à época, forneciam melhores condições para a agricultura, porquanto começara a era do café, o “ouro negro”. A produção de café na região entre Nova Friburgo e Cantagalo estava florescendo, especialmente nas terras de Euclides da Cunha. Produto fundamental para dar maior estabilidade econômica ao Império, favorecia também a estabilidade econômica. A agricultura foi a responsável por essa migração.

Sob a pesquisa minuciosa de Henrique Bom, transportada para Imigrantes, reconheço o patriarca de minha família – Frauches: Jean Abram Frauche, seu nome verdadeiro. Todos esses livros deram-me informações e documentos preciosos para contar a história do patriarca da Família Frauches no Brasil. Em A saga de Jean Abram Frauche relato sua história desde o embarque em Estavayer-le-Lac, no Lago Neuchâtel, Suíça, passando pelo porto de Amsterdã, Holanda, com destino ao Rio de Janeiro, sua chegada à Colônia Nova Friburgo e, finalmente, sua migração para São Sebastião do Paraíba, distrito do município de Cantagalo (RJ), onde constituiu família, desenvolveu suas atividades profissionais e econômicas. Ali faleceu e foi sepultado em 1875.

Jean Abram é filho de Pierre Abram Frauche, de Ursins, e de Marion Peitrigner. Nasceu em 27 de setembro de 1802. Foi batizado na Igreja de Ursins, tendo por padrinho Jean Abram Beney, de Vallayres, e madrinhas Marion Christin, de Ursins, e Jeanne Baudin, também de Ursins. Foi o único Frauche que emigrou da Suíça à Colônia Nova Friburgo. Em Cantagalo, casou-se, em 1824, com Anne Marie Lugon-Moulin, também imigrante suíça. Tiveram quinze filhos, todos registrados com o sobrenome Frauches. Os descendentes destes, graças à “colaboração” dos escribas das igrejas e dos cartórios, tiveram o sobrenome voltado ao original Frauche, mantido o Frauches ou alterado para Franche, Franches, Frauch, Franch, Frouch, Flauche.

Somos muitos, somos uma grande família, e nos descobrimos ainda muito mais numerosos nestes tempos em que as redes sociais diminuem os espaços e as distâncias e nos aproximam sempre, sempre mais.

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