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Quase extintos na era do celular, orelhões resistem nas ruas de Cantagalo

Na pacata Rua Guilherme Zanon, no distrito de Santa Rita da Floresta, em Cantagalo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, um telefone público – ou orelhão – sobrevive em meio ao constante avanço tecnológico. Equipamentos indispensáveis para a comunicação até meados de 2000, os telefones públicos, ou orelhões, estão desaparecendo das ruas de todas as cidades do estado.

O orelhão da Rua Guilherme Zanon está bastante deteriorado devido a ação do tempo, porém, em pleno funcionamento. Inclusive, no momento do registro para a foto deste artigo, moradores locais estavam utilizando o telefone público, pois na localidade o sinal de celular é sempre instável. Ainda hoje, alguns números exigem contato via telefone fixo, ou seja, caso você só tenha acesso a aparelhos smartphones, o orelhão público se torna crucial.

O item era considerado essencial, em uma época onde telefone fixo e celulares eram considerados artigos de luxo. Smartphones naquela época? Nem pensar. Criado em 1971 e rapidamente incorporado à paisagem urbana do país, os primeiros telefones de uso público foram instalados em meados de 71, na Rua 7 de Abril, região central de São Paulo. No dia 20 de janeiro do mesmo ano, a cidade do Rio de Janeiro recebeu os primeiros orelhões da Companhia Telefônica Brasileira.

Origem do orelhão

O orelhão foi criado pela arquiteta chinesa Chu Ming Silveira, que veio para o Brasil com sua família, em 1951. A ideia surgiu em princípios de 1970, quando Chu Ming chefiava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira. Foi criada a partir da forma do ovo. Simples e acusticamente a melhor, segundo a arquiteta.

Os telefones realmente públicos só chegaram às calçadas brasileiras em meados de 1971, quando mais de 93 milhões de pessoas já habitavam o território nacional e nem se sonhava em carregar um telefone móvel. O celular foi lançado em 1973.

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Chu Ming Silveira, a mulher que inventou o orelhão.

Diminuição dos orelhões

Muita coisa interfere nesse processo. A tecnologia, por exemplo, está cada vez mais acessível à população, independentemente da sua classe social. E fatores como a competição de mercado entre as grandes marcas também cooperaram para este cenário. Mas dois dos principais motivos estão ligados à questões políticas.

Em outubro de 2019, por exemplo, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a Lei Geral das Telecomunicações. O documento não sofria alterações desde 1997. E de acordo com o novo texto, criou-se a possibilidade para as empresas de telefonia fixa de trocar o regime de concessão dos orelhões para o de autorização, assim como já ocorre com a telefonia móvel.

Com a mudança, as companhias ficaram livres de algumas atribuições, como a instalação e a manutenção dos telefones de uso público. Como contrapartida, foram obrigadas a investir mais em projetos ligados à telefonia móvel e banda larga em localidades ainda não contempladas pelo serviço.

O segundo ponto é mais recente. Em 27 de janeiro deste ano, o governo federal publicou um decreto que aprova o chamado Plano Geral de Metas para a Universalização do Serviço Telefônico Fixo Comutado Prestado no Regime Público (PGMU). Segundo a Anatel, dentre as alterações realizadas está o fim da obrigação da concessionária em manter os orelhões a cada 300 metros nas localidades atendidas com acesso individual.

Além disso, põe fim também à obrigação por parte das empresas de garantir a densidade de 4 orelhões para cada mil habitantes por município e da redução de 50% para 10% da quantidade de terminais instalados em locais acessíveis ao público 24 horas por dia. Telefones públicos instalados em pontos estratégicos ainda permanecem, mesmo que com o aspecto deteriorado, mas em funcionamento de linha.

Um orelhão Avenida Djalma Beda Coube, ofuscado em meio o crescimento urbano.
Um orelhão Avenida Djalma Beda Coube, ofuscado em meio o crescimento urbano.

Importância do telefone público

Se hoje é mais acessível ter um smartphone ou algum aparelho de comunicação, nem sempre o cenário foi esse. Na época, ter um telefone fixo não era algo barato: além de ser caro [o aparelho], a conta também era alta. Pagava-se por impulso e cada minuto correspondia a vários impulsos telefônicos — o que era um absurdo de caro. E foi durante a Ditadura Militar que se expandiu o uso dos telefones públicos.

Uso do orelhão

Foi a partir dos anos 1990, as fichas telefônicas foram substituídas pelos cartões que, ao contrário delas — que eram “engolidas” pelos telefones –, ficavam com o usuário mesmo após o fim dos créditos. Por conta das estampas e das edições colecionáveis, inúmeras pessoas ainda possuem coleções de cartões telefônicos da época.

Os primeiros cartões telefônicos no país foram emitidos em 1992, por ocasião da Eco-92. Era muito fácil de encontrar em cada esquina os avisos: “temos cartão telefônico”. Com o frequente avanço da tecnologia, a Anatel estimou uma redução de 77% da quantidade de orelhões existentes até o ano passado. Isso representa mais de 256 mil aparelhos extintos em todo o Brasil. Afinal, tudo é um ciclo.

Por Iago Guimarães

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