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Fazenda São Clemente, em Cantagalo, abriga espécies raras e endêmicas

A Fazenda São Clemente, localizada em Boa Sorte, 5º distrito do município de Cantagalo, tem raízes históricas, tendo sido formada pela Sesmaria São Clemente, medida e demarcada, segundo consta das cartas de sentença e terras anexadas, pelo Comendador Francisco Clemente Pinto, em 22 de janeiro de 1858 e 27 de fevereiro de 1861. Este, sendo um próspero cafeicultor, foi proprietário de cerca de dez fazendas, estando entre elas as de São Clemente, Matta Porcos e Bella Vista. Mas a Fazenda São Clemente destaca-se além do cenário da cafeicultura do século XIX, estando nos dias de hoje em estado primoroso de conservação, não apenas de suas estruturas físicas, mas também de seu jardim histórico – tema dessa coluna.

A propriedade possui um belo e imponente jardim, concebido no conceito de pomar-parque, que apresenta características do estilo desenvolvido pelo paisagista francês Auguste François Marie Glaziou (que executou muitos projetos para o imperador D. Pedro II). Devido à semelhança encontrada entre o traçado original,  retratado em tela de Henry Walder, datada de 1895, representando a propriedade (pertencente ao acervo atual da fazenda) e da ocorrência de outros projetos de Galziou para alguns membros da família Clemente Pinto, podemos supor que o Pomar-Parque da Fazenda São Clemente também tenha sido projetado por esse paisagista.

Ao longo do século XX a manutenção das características primárias desse jardim histórico não foi possível por questões diversas. No entanto, a partir de 2001, tendo adquirido a propriedade dos demais herdeiros, o atual proprietário, Marcello Cardoso Monnerat, iniciou a restauração do jardim de forma concomitante às reformas nos prédios da fazenda. O trabalho foi árduo, começando pela supressão da vegetação excedente que, por falta de manutenção, desenvolveu-se de forma desordenada, reduzindo consideravelmente a área do jardim. Durante esse processo, a vegetação que crescia nos caminhos foi suprimida ou transplantada, para que a eles fosse devolvido o traçado inicial. Em 2004 iniciou-se o replantio de espécies de palmeiras e árvores raras no Pomar-Parque e em 2017, ocorreu o término do principal replantio das mudas de árvores frutíferas e ornamentais para a restauração desse jardim histórico, sendo erguido um chafariz em sua posição central. O chafariz, que atraia atenção dos visitantes por sua beleza, foi reconstruído sob a orientação do historiador e paisagista Luiz Fernando Dutra Folly e da arquiteta Luanda Jucyelle Nascimento de Oliveira e seus aspecto resgatado graças à riqueza de detalhes contidos na tela à óleo de Henry Walder. Tendo capacidade para cerca de 40.000 litros de água, nele se destaca uma bela estátua que, embora não original, cumpre seu papel histórico e de beleza, por ser uma obra de arte da famosa fundição francesa Val d’Osne. Vale ressaltar que os lagos que compõem o projeto paisagístico original também foram restaurados.

O pomar parque da Fazenda São Clemente é composto por uma diversidade significativa de espécies botânicas, apresentando tanto espécies da flora nativa da Mata Atlântica, como espécies nativas de outros biomas brasileiros e de espécies exóticas, naturais de outros países. Como um dos espécimes que se destacam na alameda principal do Pomar-Parque é um imponente exemplar de palmeira imperial, podemos aproveitar e recordar o valor histórico dessas palmeira, já que consta que a primeira muda dessa palmeira (Roystonea oleracea) foi plantada por D. João VI e, pelo cuidado com que ele mesmo dispensava à planta, acabou por ser conhecida como palmeira-imperial. Plantada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ela recebeu o nome de palma mater porque todas as palmeiras dessa espécie existentes no Brasil são suas descendentes. Há muitas histórias que seguem a tradição oral e que reportam a importância dessa palmeira. Uma delas diz que o Imperador D. Pedro II tinha o hábito de oferecê-las aos súditos mais fiéis como símbolo de lealdade à Coroa. Disso resultaria a presença da palmeira imperial nos jardins dos solares e fazendas da nobreza do Império brasileiro. Infelizmente a palma mater foi atingida por um raio, na década de 1970. O seu tronco foi preservado e está em exposição no Museu Botânico. Em seu lugar foi plantado outro exemplar de palmeira imperial, obtido com sua semente. Este exemplar é chamado de palma filia.

Pomar de Cambucá na Fazenda São Clemente em Cantagalo RJ
Cambucá – Árvores símbolo de Cantagalo (Plinia edulis)

Além da palmeira imperial, podemos destacar no Pomar-Parque algumas espécies de incrível beleza, além de importante significado para conservação da flora, tais como as frutíferas sapucaia (Lecythis pisonis), sapoti (Achras sapota), sapota preta (Diospyros digyna), pêssego-da-índia (Diospyrus discolor), jabuticaba (Myrciaria cauliflora), grumixama (Eugenia brasiliensis), cambucá grande (Plinia edulis) e cabeludinha (Plinia glomerata). Ou ainda as palmeiras  maria rosa ou mari-rosa (Syagrus macrocarpa – que acredita-se ameaçada de extinção), palmeira-de-leque-da-china (Livistona chinensis), tamareira (Phoenix dactylifera) e palmeira latânia-vermelha (Latania commersonii), entre muitas outras. Destacam-se ainda espécies nobres e ornamentais, tais como árvore do viajante (Ravenala madagascariensis), copaíba (Copaifera langsdorffii), geniparana (Gustavia augusta), jasmim-do-imperador (Osmanthus fragrans), jequitibá (Cariniana sp), peroba (Aspidosperma sp.) e vinhático (Plathymenia foliosa).

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Palmeira Imperial (Roystonea Oleracea)
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Palmeira Imperial (Roystonea Oleracea)

Em um esforço recente, uma das alamedas do jardim recebeu o plantio de 26 pés de cambucás, com mudas produzidas por Carlos Lincoln Monnerat, pai do atual proprietário. Para a produção dessas mudas, foram utilizadas sementes colhidas de árvores adultas da própria fazenda, que contando com esse plantio tem agora um total de 35 pés de cambucás. Além da beleza dessa área, vale ressaltar o reforço do papel desse espaço na preservação da espécie do cambucá, que é também a árvore símbolo do município de Cantagalo.

A diversidade botânica da Fazenda São Clemente não para de surpreender, pois além desse jardim a fazenda possu outro pomar-parque, o de São Uriel, localizado próximo à sede da fazenda em uma área de cerca 96.000m2. Os plantios nessa área foram iniciados em março de 1991, pelo atual proprietário, com definição dos limites do Parque. Inicialmente foram encontradas apenas cinco árvores que continuam preservadas junto à muitas novas espécies ali plantadas. Fiel à uma das características básicas de um pomar-parque, a de propiciar a conservação das espécies, este é o maior protetor da palmeira Maria Rosa (Syagrus macrocarpa), no Brasil, espécie endêmica da Mata Atlântica ameaçada de extinção.

As duas áreas de pomar-parque da Fazenda São Clemente, fiéis à sua história e propósito, reforçam a importância do pomar como elemento imprescindível nas fazendas, pois era ele o responsável pelo fornecimento de frutas à propriedade, em uma época em que só se comia frutas, que as plantasse. No caso específico dessa fazenda histórica, que conta com dois pomar-parques, eles ainda tem funções paisagísticas e preservacionistas.

Agora que conhecemos um pouco sobre os jardins da Fazenda São Clemente, podemos confirmar que o hábito de cuidar de plantas, criando jardins e pomares não é algo novo e nos serve de ensinamento pois, que quem planta e cuida, colher bons frutos e faz História.

Abaixo flor e fruto conhecidos como garrafinha e outras frutas.

003 Garrafinha 18
Garrafinha
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Garrafinha
Fazenda São Clemente, em Cantagalo, abriga espécies raras e endêmicas
Pêssego da Índia (Diospyros discolor)
Maria rosa em baixo 022 3
Palmeira-maria-rosa (Syagrus Macrocarpa), espécie rara.
Maria rosa em baixo 022 5
Palmeira-maria-rosa (Syagrus Macrocarpa), espécie rara.

 

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Interessante broto da fruta Cabeludinha (Myrciaria glazioviana)
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Jambo-branco (Syzygium Aqueum), que quando maduro, fica literalmente branco.

Para quem quiser conhecer um pouco mais das belezas da Fazenda São Clemente, visite o Instagram @faz_saoclemete.

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