Família questiona morte de adolescente em cela da delegacia de Cantagalo
José Gabriel, 16 anos, morreu dentro da carceragem. Exclusivo – Um caso sensível ocorrido no início de 2026 segue gerando questionamentos em Cantagalo, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Na manhã do dia 4 de janeiro, um adolescente de 16 anos foi encontrado morto em uma das celas da 153ª Delegacia Legal do município. O episódio, inicialmente tratado como um possível suicídio, passou a ter novos desdobramentos após manifestações da família e da defesa do jovem.
O adolescente, identificado como José Gabriel Avelar de Carvalho Guzzo, havia sido apreendido no dia anterior, 3 de janeiro, após a Polícia Militar ser acionada para atender uma ocorrência em sua residência, relacionada a um surto psiquiátrico e agressão a sua própria mãe. Segundo informações repassadas à reportagem, o jovem possuía diagnóstico de esquizofrenia e foi conduzido à delegacia por volta das 15h35, onde permaneceu custodiado.
De acordo com o relato da mãe ao Serra News, durante o período em que José Gabriel esteve na carceragem não houve atendimento médico, acionamento do Conselho Tutelar nem acompanhamento especializado. Ainda segundo ela, não teria sido mantida vigilância contínua sobre o adolescente. Na manhã seguinte, o adolescente foi encontrado desacordado dentro da cela. O SAMU chegou a ser acionado, mas a morte foi constatada no local.
Diante da morte, a defesa informou que pretende recorrer judicialmente contra o Estado, alegando uma série de falhas no procedimento adotado pela unidade policial. O advogado Matheus Robadey ressaltou que, mesmo se tratando de um menor com diagnóstico psiquiátrico, não houve encaminhamento a uma unidade de saúde nem adoção das medidas previstas para casos dessa natureza.
“Trata-se de um menor com diagnóstico psiquiátrico. Não houve encaminhamento ao hospital, não foi acionado o Conselho Tutelar e ele permaneceu sem a supervisão adequada”, afirmou o advogado.
Ainda segundo a defesa, o adolescente teria sido mantido na mesma cela que outros dois detidos por tráfico de drogas, o que também é alvo de questionamentos. A mãe do jovem afirmou estranhar a possibilidade de o filho ter atentado contra a própria vida, alegando que o ambiente da cela não apresentaria condições compatíveis com essa hipótese.
A defesa afirma ainda que, embora a hipótese de suicídio não esteja descartada, outras possibilidades precisam ser consideradas, já que o menor teria dividido a cela com detentos maiores de idade. “Diante do surto psiquiátrico, não é possível afirmar se houve algum tipo de conflito. Conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ele deveria ter permanecido separado de presos adultos” – disse o advogado.
A defesa também destacou a suposta ausência de profissionais suficientes na delegacia no momento do ocorrido. Conforme relatado pelo advogado, no dia da morte do adolescente havia apenas um inspetor de plantão na unidade, que teria se ausentado temporariamente para comprar pão para os presos. Ainda de acordo com a defesa, não havia equipe técnica, acompanhamento especializado nem monitoramento contínuo da carceragem durante o período em que o menor esteve custodiado.
Segundo a defesa, o laudo pericial preliminar apontou o enforcamento como causa da morte e registrou a presença de lesões superficiais no rosto do adolescente. Conforme destacou o advogado, essas lesões podem ou não estar relacionadas a um surto psicótico. Ainda de acordo com a defesa, no mesmo dia do ocorrido, um dos outros detentos que teria dividido a cela com o menor passou mal e precisou ser encaminhado a uma unidade hospitalar.
O Serra News procurou a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro para obter esclarecimentos sobre as circunstâncias do caso, as providências adotadas e a eventual abertura de procedimento para apuração dos fatos. Em resposta, a corporação informou apenas que “o caso está sob sigilo”.
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Lamento e dor
A morte do adolescente causou comoção em Cantagalo. José Gabriel era estudante do Colégio Estadual Maria Zulmira Torres e muito querido por colegas, professores e pela comunidade escolar. Em comunicado, a instituição lamentou a perda e destacou a dor provocada pela partida precoce do aluno, ressaltando que, quando um jovem perde a vida, sonhos são interrompidos e toda a sociedade sofre essa perda.
“Estou sofrendo muito. Meu filho não foi vigiado e estava fora de si. Ele deveria ter sido encaminhado diretamente para o hospital. Eu sequer fui comunicada de sua morte pela delegacia; soube do ocorrido por meio da namorada dele. Espero que as causas dessa morte sejam devidamente esclarecidas”, declarou a mãe.
“Poderia ser o filho de qualquer um. Por que ele não foi encaminhado ao hospital antes de ser levado para a delegacia? O Conselho Tutelar foi acionado? Vemos vereadores se manifestando com frequência sobre segurança e outros temas, mas, neste caso, ninguém foi à delegacia cobrar esclarecimentos. Fica a sensação de que, se fosse filho de uma pessoa rica, a situação poderia ter sido diferente”, questionou o morador Rafael Garcia.





