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Molécula descoberta no RJ pode revolucionar tratamento para lesão medular

Tratamento para lesão medular voltou ao centro do debate científico no Brasil após o avanço de uma molécula estudada há quase três décadas para a fase inicial de testes clínicos. Trata-se da polilaminina, substância desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e apontada como uma nova esperança para pacientes que convivem com a condição — que pode levar à paraplegia e tetraplegia — e para a qual ainda não existe terapia capaz de promover a regeneração plena da medula espinhal.

Derivada da laminina — proteína produzida naturalmente pelo corpo humano, especialmente na placenta — a polilaminina recebeu, no início deste ano, autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a fase 1 de testes clínicos. Essa etapa é a primeira exigida antes que um medicamento possa ser aprovado para comercialização no país e tem como foco principal avaliar a segurança da substância em humanos. Ainda serão necessárias as fases 2 e 3 dos testes clínicos, que irão analisar eficácia, dose ideal e relação risco-benefício — um processo que pode levar anos.

A autorização representa um marco para os pesquisadores que investigam a molécula há mais de duas décadas, após resultados considerados promissores em modelos experimentais voltados ao tratamento de lesão medular e à possível regeneração da medula espinhal.

Como a polilaminina atua

Lesões na medula espinhal geralmente ocorrem após acidentes, como quedas e colisões de carro ou moto, além de casos de violência com armas brancas ou de fogo. Doenças infecciosas e autoimunes também podem comprometer a estrutura nervosa. Dependendo da extensão e do local atingido, as consequências incluem paraplegia e tetraplegia, impactando drasticamente a qualidade de vida dos pacientes.

Nos casos mais graves, quando há lesão completa da medula, cirurgias e programas de reabilitação ajudam na adaptação, mas não promovem a regeneração da medula espinhal. Atualmente, não existe tratamento para lesão medular capaz de restaurar totalmente os movimentos. É nesse contexto que cresce a expectativa em torno da polilaminina.

A laminina, base da nova substância, exerce papel fundamental na formação dos tecidos durante o desenvolvimento embrionário e é considerada uma proteína “potente” no sistema nervoso, especialmente por estimular o crescimento dos axônios — estruturas dos neurônios que são rompidas em uma lesão medular.

A polilaminina é um complexo dessas moléculas de laminina, recriado em laboratório, que funciona como uma espécie de “andaime biológico”. Em modelos experimentais, esse suporte permitiu que células nervosas reconstruíssem os axônios danificados, apontando potencial na regeneração da medula espinhal e no futuro tratamento para lesão medular.

Produção e aplicação

O medicamento é desenvolvido em parceria com a farmacêutica Cristália. Segundo a empresa, a polilaminina não é uma proteína 100% recombinante. Para manter a estrutura mais próxima da humana, a laminina é extraída da placenta, material naturalmente rico nessa proteína.

A coleta ocorre por meio de parcerias com hospitais do interior de São Paulo. Durante o pré-natal, gestantes são convidadas a doar a placenta — que normalmente seria descartada após o parto. As doadoras passam por acompanhamento de saúde para garantir que o material esteja livre de vírus ou outras contaminações.

Após a extração e purificação da laminina, o produto final é enviado ao centro cirúrgico em dois frascos. No momento da aplicação, o médico mistura o diluente à proteína, permitindo que as moléculas se organizem e formem uma rede no local da lesão medular, geralmente acima e abaixo da área afetada na medula espinhal.

Descoberta por acaso

O estudo da polilaminina começou de forma inesperada na UFRJ. Anos atrás, um pesquisador adquiriu laminina para um experimento, mas não utilizou o material. A pesquisadora Tatiana Sampaio se interessou pela proteína e iniciou testes sem, inicialmente, buscar um tratamento para lesão medular.

Durante os experimentos, observou-se que o complexo formado — batizado de polilaminina — estimulava consistentemente o crescimento de axônios em células isoladas e, posteriormente, em modelos de trauma medular em ratos.

Os resultados positivos se repetiam independentemente do tipo de lesão medular testada. Isso deu confiança para avançar na pesquisa e vislumbrar o potencial terapêutico da molécula na regeneração da medula espinhal, especialmente em quadros que levam à paraplegia e tetraplegia.

Estrutura molecular em fundo cósmico.
Polilaminina tem formato de cruz: a “proteína de Deus”. Foto gerada por IA.

Mortes de pacientes e esclarecimentos

Nos últimos dias, três pacientes que receberam aplicações de polilaminina por decisão judicial morreram. As mortes ocorreram no Espírito Santo (28 de janeiro), no Paraná (1º de fevereiro) e no Rio de Janeiro (9 de fevereiro).

Em nota, a Cristália informou que não há relação entre os óbitos e o medicamento. De acordo com a empresa, as causas foram embolia pulmonar, pneumonia e septicemia. A farmacêutica destacou que pacientes com lesão medular grave apresentam alto risco de complicações clínicas, com taxas de mortalidade que, em algumas estatísticas, podem chegar a 40%.

A empresa comunicou que os casos foram ou estão sendo notificados à Anvisa e que nenhum dos pacientes havia recebido alta hospitalar, todos apresentando intercorrências durante a internação. Especialistas reforçam que, por estar na fase 1 de testes clínicos, ainda é prematuro criar expectativas definitivas sobre a eficácia do produto no tratamento para lesão medular.

Por outro lado, relatos de pacientes em acompanhamento indicam avanços significativos, inclusive com casos de recuperação de movimentos e até retomada dos primeiros passos. Recentemente, ganhou repercussão nas redes sociais a história de Pedro Rolim, paciente com paraplegia após lesão medular na altura de T12. Ele foi submetido ao tratamento com polilaminina no dia 2 de fevereiro deste ano e, segundo divulgado, voltou a apresentar movimentos apenas 15 dias após a aplicação da dose.

Brasil perdeu patente internacional

Apesar do avanço científico, a pesquisa também expôs fragilidades estruturais. Segundo Tatiana Sampaio, o Brasil perdeu a patente internacional da polilaminina devido a cortes orçamentários que atingiram a UFRJ em 2015 e 2016.

O pedido de patente foi feito em 2007, quando o projeto ainda estava em estágio inicial. A concessão ocorreu apenas em 2025, após 18 anos de tramitação. Como a validade da patente é de 20 anos, o tempo se tornou um fator crítico.

A pesquisadora explicou que o grupo registrou primeiro a patente nacional e, depois, a internacional. Contudo, a universidade deixou de pagar as taxas necessárias para manter o registro fora do país durante o período de restrições orçamentárias, o que levou à perda definitiva dos direitos internacionais. A patente nacional só foi mantida porque a própria pesquisadora arcou temporariamente com os custos.

Com a perda da proteção internacional, outros países podem copiar a tecnologia sem que o Brasil tenha controle ou retorno econômico sobre uma descoberta desenvolvida com recursos públicos e capital intelectual nacional.

Esperança com cautela

Apontada como uma das descobertas biomédicas mais promissoras já desenvolvidas no país, a polilaminina ainda enfrenta um longo caminho até eventual aprovação definitiva. O avanço para a fase 1 de testes clínicos representa um passo histórico na busca por um novo tratamento para lesão medular, mas o processo científico exige tempo, rigor e validação.

Enquanto isso, a molécula segue despertando esperança em pacientes que convivem com paraplegia e tetraplegia, mantendo viva a expectativa por avanços concretos na regeneração da medula espinhal.

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