Ibrahin e Henrique de Oliveira: Irmãos necrófilos que aterrorizaram Nova Friburgo

A repórter Marie Declercq é fascinada por histórias de crimes bizarros. Começou com os romances de detetive, mas depois ela sacou que a realidade sempre vence a ficção no quesito crueldade. A cultura da violência do Brasil infelizmente é um terreno fértil, e aqui você vai conhecer os crimes mais bizarros e brutais da história do país.

*Esta reportagem foi feita com ajuda de Maria Aline Balonecker da Cunha, funcionária da Fundação D. João VI de Nova Friburgo-RJ. Aline me enviou mais de 300 páginas de reportagens do jornal A Voz da Serra, fornecendo todas as datas e informações sobre os assassinatos. Obrigada, Aline!

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Tarde tranquila de um domingo de Carnaval em 27 de fevereiro de 1995. Para amenizar o calor, Elizete Ferreira Lima e seu marido João Carlos Maria da Rocha tomavam banho em uma das cachoeiras de Janela das Andorinhas, zona rural pacata e paradisíaca de Nova Friburgo na região serrana do Rio de Janeiro. Enquanto Elizete tirava um cochilo na margem da cachoeira, João nadava um pouco mais adiante. Estavam sozinhos. Por pouco tempo.

Elizete sentiu um peso enquanto dormia. Abriu os olhos e viu um homem sobre seu corpo e outro, de pé, a observando. Um deles bateu com uma pedra na sua cabeça e foi pra cima de João, que corria para tentar salvar a esposa. Elizete sequer teve tempo de gritar. Viu seu marido sendo morto a pedradas pelos dois homens e o corpo sem vida sendo estuprado. Em seguida foi arrastada pelos dois pra dentro da mata densa que envolvia a cachoeira. Foi estuprada violentamente por um dos homens, enquanto o outro assistia a cena pulando de alegria, comemorando e segurando um livro com uma cruz preta estampada.

Num golpe de sorte, um dos assassinos se distraiu e deu brecha para Elizete fugir. Ela correu pela mata, se jogou de um barranco de dois metros e foi socorrida por algumas pessoas que andavam por perto. Estava desesperada, com cortes de canivete no braço e nua.

Os moradores levaram Elizete às pressas para o hospital mais próximo. Na sequência, a própria vítima confirmou as suspeitas da polícia e da população. Os irmãos necrófilos estavam de volta.

Ibraim e Henrique de Oliveira tinham entre 19 e 20 anos quando aterrorizaram a outrora tranquila e humilde zona rural de Nova Friburgo. Entre 1991 e 1995, os irmãos mataram oito pessoas brutalmente e praticaram necrofilia com todos os corpos. Os irmãos circulavam e viviam numa área de 300 mil metros quadrados de Mata Atlântica que compreendia os municípios de Sumidouro, Riograndina e Nova Friburgo, área que conheciam como ninguém. Eles apareciam e desapareciam com facilidade, atacando e arrastando mulheres de suas casas. Segundo o jornal A Voz da Serra, estima-se que 70% das famílias que moravam na zona rural abandonaram suas casas com medo de se tornarem vítimas dos assassinos.

Pouco se sabe sobre a curta trajetória de Ibraim e Henrique. Os moradores mais antigos da região confirmam que os irmãos eram de uma família miserável, nascidos em um ambiente de trabalho braçal sob a rígida batuta do patriarca, Brás de Oliveira, um homem alcoólatra que agredia a mulher Maria Luiza. Batia também nos filhos e não raro obrigava Ibraim e Henrique e passarem noites adentro da mata sem mantimentos. Ibraim era o primogênito, seguido de Henrique e mais dois irmãos caçulas, Jailton e Márcia de Oliveira.

Embora os relatos dos moradores da região sobre o caso beirem o sobrenatural, como se tratasse de uma lenda macabra sobre os irmãos, todos confirmam que desde a infância Ibraim já causava medo ao matar animais para fazer sexo com as carcaças. Ambos jamais saíram da região onde foram criados, assim como não aprenderam a ler e escrever e muito menos chegaram a ver o centro da cidade de Nova Friburgo ou qualquer outro lugar mais urbanizado. Eram vistos como animais selvagens, brutais e sem empatia.

Em 1991, cometeram os primeiros assassinatos em Riograndina. A primeira foi Eliana Macedo Xavier, de 21 anos. A jovem estava desaparecida há uma semana quando seu corpo foi encontrado no meio da mata em 15 de fevereiro, com uma das pernas devorada por animais e já em avançado estado de decomposição. Foi estrangulada por um fio de arame e seu corpo foi vítima de necrofilia. Ao seu lado estava uma certidão de nascimento desgastada, um crucifixo de madeira preta, uma carteira de veludo preto e sua calcinha azul rasgada.

Sete meses depois, outro crime abalou novamente a comunidade rural de Nova Friburgo. O corpo da estudante Norma Claudia de Araújo, de 11 anos, foi encontrado nas mesmas condições de Eliana: sem roupa, um arame em volta do pescoço e sinais de abuso sexual post-mortem. Até a localização do corpo era próxima ao de Eliane. Num primeiro momento, os familiares apontaram o lavrador Antônio Carlos Laranjeiras, que dizia ser namorado da criança, como autor do crime. Porém as suspeitas acabaram recaindo sobre os irmãos Oliveira. Eles já tinham sido acusados da morte de Eliana, mas não havia provas suficientes na época para prendê-los.

Na delegacia, Ibraim prontamente confessou ter assassinado Norma, mas disse que agiu sozinho e sem a ajuda de Henrique. No depoimento contou que matou e estuprou a criança porque ela teria dito a ele que “não gostava de preto”. Norma, vale dizer, era uma menina negra, assim como Eliane. No entanto, Ibraim negou veementemente que foi responsável pela morte da mulher de 21 anos.

Ibraim tinha 16 anos na época. Foi julgado nos termos do recém promulgado Estatuto da Criança e do Adolescente e ficou internado no Instituto Padre Rafael na Ilha do Governador até completar 18 anos, quando foi solto pela Justiça. Voltou outra pessoa. “Ele não é mais o mesmo, seu olhar é frio, não é mais o menino doente da roça, o bronco. Ele aprendeu o que não devia e vamos ter muita dor de cabeça,” profetizou a assistente social Rosa Maria de Oliveira Tostes ao ouvir sobre a liberdade de Ibraim, segundo uma reportagem do jornal A Voz da Serra.

O primogênito retornou para casa no final de 1994, mas foi recebido com medo pela família. Maria Luiza, mãe de Ibraim, revelou em uma entrevista ao Jornal do Brasil ter sido estuprada pelo filho antes mesmo de sua prisão. O mesmo aconteceu com a irmã caçula, Márcia, que sofreu estupros e agressões dos irmãos. Ela, inclusive, chegou até a engravidar de Henrique, mas abortou para não encarar a terrível sina de parir o filho de seu irmão. Na mesma reportagem ao Jornal do Brasil, Márcia disse que Ibraim chegou a cavar uma cova para enterrá-la. Escapou por pouco.

Menos de cinco meses após a chegada de Ibraim, as mortes recomeçaram. O reencontro com Henrique, descrito pela família como um menino doce, mas muito influenciado pelo irmão mais velho, foi o estopim. O modus operandi dos irmãos continuou parecido: atacavam mulheres negras, quase sempre na parte da tarde, em regiões ermas e próximas à mata. Usando arames e foices, evitavam de machucar o corpo das vítimas do pescoço pra baixo, afim de preservá-los para a necrofilia, e também levavam itens pessoais como “lembranças” de cada mulher assassinada — calcinhas eram suas peças favoritas para colecionar. É interessante observar que, quando o ciclo de matança recomeçou em 1995, a imprensa e a polícia chegaram a mencionar que os crimes tinham motivações raciais por conta da cor das vítimas.

Após a morte de João Carlos Maria da Rocha e a tentativa de homicídio de Elizete, os irmãos desapareceram no meio da mata. Se alimentavam das árvores frutíferas e viviam dentro das inúmeras grutas de Janela das Andorinhas como verdadeiros homens das cavernas. Alguns moradores da região, revoltados, chegaram a encontrar uma dessas grutas que abrigava os irmãos e botaram fogo em todos os seus pertences. A família Oliveira teve que fugir da região, já que o casebre onde moravam foi incendiado pela população e eles temiam ser linchados.

No dia 1º de abril de 1995, Ibraim e Henrique mataram a própria tia, Vera Lúcia Damasceno, a facadas. Também a estupraram, já com o corpo sem vida, e inseriram um pedaço de tronco na vagina da vítima, abandonando-a na floresta. Alguns moradores suspeitavam que Vera levava mantimentos até o esconderijo dos irmãos, mas nem o grau de parentesco foi um impeditivo para sua morte.

A população da região, já cansada de sentir medo dos irmãos e com o fracasso das buscas dos policiais do 11º Batalhão da Polícia Militar de Nova Friburgo, só pensava em vingança. Quatro dias depois, as aulas foram suspensas na cidade. Todo mundo começou a se armar, inclusive as mulheres. Estas também começaram a andar sempre na companhia de homens na tentativa de evitar qualquer ataque. A população acreditava que a polícia não estava fazendo o trabalho corretamente. Se sentiam abandonados e menosprezados, vendo suas mulheres sendo mortas brutalmente por dois jovens quase invisíveis.

“A polícia não faz nada, nossas filhas e mulheres podem ser as próximas vítimas. Até quando estas bestas vão continuar tendo liberdade para cometer esses crimes bárbaros? Doentes, qual nada! Se isso é doença, a cura é a morte, vamos matá-los. Autoridades? Somos pobres e elas só agirão quando os irmãos atingirem alguém importante da sociedade”, reclamou Hélio de Fonseca ao repórter do A Voz da Serra. Fonseca era um dos moradores de Janela das Andorinhas e dono de um bar onde grande parte da comunidade se reunia.

Rio de Janeiro de 1995 não era muito diferente do Rio de Janeiro de 2017. Já havia tiroteios entre facções criminosas e a polícia nas periferias, assim como a memória recente das chacinas da Candelária e de Vigário Geral em 1993 e uma série de sequestros sem precedentes. A polícia e os servidores públicos também estavam desfalcados, o que refletiu na demora da captura dos irmãos por parte do 11º Batalhão. Ganhavam todos salários irrisórios e tinham pouco equipamento e infraestrutura para cobrir uma área tão grande de Mata Atlântica. A região também tinha estradas em péssimo estado, o que dificultava o acesso ao local e, para piorar, não havia sinal de rádio o que impedia que os policiais adentrassem mais ainda na mata fechada. Nem mesmo as roupas dos policiais eram adequadas, visto que após as buscas pelos irmãos necrófilos, os agentes voltavam sempre cobertos de carrapatos.

Mesmo com o 11º Batalhão de Nova Friburgo destacando quase todo seu efetivo na caçada aos irmãos, as buscas não davam em nada dia após dia. Ibraim e Henrique eram vistos apenas quando invadiam as casas da região para roubar comida ou quando apareciam para matar. Depois desapareciam com o vento, sem deixar rastros. Quase como fantasmas.

Em 17 de maio foi a vez da lavradora Odete de Carvalho, 56 anos. Foi morta por golpes de foice e abusada na própria casa. Foi encontrada pelo marido, José Lapa, que num ato de desespero se embrenhou mata adentro na caça aos irmãos. Pouco tempo depois, em julho, Iria Moraes Ornellas, de 67 anos, foi enforcada com a própria saia e estuprada na cozinha de casa. Os irmãos levaram mantimentos, queijos caseiros e todas as calcinhas da vítima como prêmio.

Em meados de junho de 1995, o prefeito de Sumidouro fez um apelo a Newton Cerqueira, secretário de Segurança Pública do estado. A solução foi destacar um efetivo do Batalhão de Operações Especiais para ajudar a população e os policiais do 11º Batalhão a continuar a caçada.

A ida do BOPE foi elogiada pelos moradores, que logo criticaram a forma que as buscas eram realizadas. Especialmente quando o coronel Celso Novaes pediu para que a população se desarmasse para “evitarem tragédias”. Também não gostaram quando a Guarda Municipal começou a interditar as casas abandonadas pelas famílias amedrontadas para impedir que servissem de eventual abrigo aos Oliveira. Alegavam que era injusto destruir a moradia que pessoas pobres demoraram anos para construir. O medo era tão grande que episódios de racismo começaram a se espalhar na região. Bastava a polícia avistar dois negros caminhando juntos que julgavam ser os irmãos necrófilos.

Nesse meio tempo, Ibraim e Henrique continuavam saqueando os sítios e tentando atacar mulheres dentro de suas casas. Uma jovem quase foi vítima da dupla, mas atirou contra a porta que os dois tentavam arrombar, os espantando. Em agosto, Ibraim foi baleado por um grupo de homens em patrulha perto da Usina da CENF, mas conseguiu fugir, com cuidado de apagar os rastros de sangue na floresta.

As aparições dos irmãos só aumentavam a intensidade dos relatos sobrenaturais na comunidade. “Eles têm a oração de São Cipriano, corpo fechado e outras crenças”, disse um grupo de moradores ao jornal A Voz da Serra. “Eles só aparecem quando é lua cheia, tendo um trato com o demo, ficam invisíveis e podem sumir na frente de qualquer um, seja dia claro ou noite. Eles carregam uma oração e como também são filhos da natureza, qualquer ferimento eles curam de forma instantânea, utilizando terra e água. Eles têm um trato de matar as mulheres e entregar a alma delas para o Demo.”

O último ataque dos irmãos foi também um dos mais brutais. Num domingo, por volta do meio dia, em Janela das Andorinhas, os dois arrombaram a porta dos fundos e atacaram Maria Dorcileia Faltz de 39 anos. No ato, foram surpreendidos pelo filho de 9 anos da vítima, Adriano Faltz Gomes, que tentou ajudar a mãe. Foi coberto de pauladas. Dorcileia foi arrastada pelos cabelos até o alto de uma pedraria próxima a sua casa. Foi asfixiada com o próprio sutiã e estuprada após a morte.

O marido de Dorcileia, Izidio Onofre Gomes, chegou em casa no final da tarde e encontrou o filho no chão da cozinha gravemente ferido. Saiu pela estrada com o filho nos braços, que mal respirava. Adriano morreu no dia seguinte no hospital. Dorcileia, por sua vez, foi encontrada na segunda-feira pelo marido e mais um grupo de homens. Ela estava grávida de sete meses e teve seus órgãos genitais mutilados.

As mortes dentro da família Faltz geraram uma comoção em Nova Friburgo. Somando-se as críticas ao BOPE e a brutalidade dos irmãos, a revolta da população era latente. Na mesma semana, um protesto no centro da cidade juntou duas mil pessoas que seguiram o caixão com o corpo de Dorcileia, carregado por Izidio e mais alguns homens. Nesta altura, a história dos irmãos necrófilos ganhou projeção nacional. Uma recompensa de R$ 5 mil foi oferecida pelo prefeito de Nova Friburgo, mas os próprios friburguenses diziam estar mais interessados em matar os dois do que em ganhar o dinheiro.

Dada a atenção nacional dos crimes bizarros, mais 200 policiais do BOPE foram enviados a Nova Friburgo com cães farejadores.

Ibraim foi avistado perto de um sítio em Riograndina no dia 16 de dezembro pelo lavrador César de Araújo Pinto. Prontamente, César avisou os policiais do BOPE e se enfiou na mata com eles para tentar, finalmente, captura-lo. Quando Ibraim estava prestes a atacar César com uma faca, tomou cinco tiros de um subcomandante do Bope, o capitão Fernando Príncipe Martins.

Ainda assim, Ibraim conseguiu fugir. Foi encontrado horas depois na mata fechada, morto. César contou que o corpo fedia, como se Ibraim já estivesse morto há dias. Morreu com 19 anos e, segundo as notícias, usava uma calcinha cor de rosa e tinha seu corpo todo depilado. O paradeiro de Henrique, porém, ainda era desconhecido, o que levantou as suspeitas de que fora morto pelo próprio irmão meses atrás, já que, pelos relatos, quem matava era Ibraim e quem assistia era o irmão.

Nas horas seguintes à morte de Ibraim, a polícia precisou agir rápido. A notícia se espalhou em questão de minutos pela cidade e logo mais de 300 pessoas cercaram uma ponte para impedir que o carro que transportava o corpo de Ibraim passasse. Populares queriam incendiar o carro, outros tinham apenas a curiosidade de olhar para o cadáver do jovem.

Muitos moradores também quiseram invadir o IML da cidade para esquartejar o corpo. Havia até gente dizendo que a morte de Ibraim era mentira e que só acreditavam vendo o assassino sem vida com os próprios olhos. Por isso, os policiais precisaram levar o cadáver às pressas e sem alarde para o IML de Itaboraí. Dias depois, após o reconhecimento da mãe, Ibraim foi sepultado como indigente no cemitério público Esperança, em Itaboraí. Nenhum familiar compareceu ao enterro.

A comunidade respirou tranquila, mesmo com Henrique ainda desaparecido. O capitão Príncipe se tornou um herói local e foi defendido pelos cidadãos quando a promotora Elizabeth de Lima Carneiro pediu a reconstituição da morte do jovem, para averiguar se não houve excesso por parte do policial. A população protestou. “Eles são heróis, não são bandidos.”

Meses depois Henrique se entregou à Justiça, no dia 17 de junho de 1996. O jovem estava escondido nos arredores da fazenda do advogado Aguilera Campos e pediu para o administrador do local chamar a promotora Elizabeth ao seu encontro. Sem fazer alarde, com medo de a notícia espalhar, Elizabeth buscou Henrique e o levou até seu gabinete.

Henrique andou de carro pelo centro da cidade e visivelmente se mostrava assustado com os movimentos urbanos. Provavelmente era uma das poucas vezes em que saiu da mata. Em segredo, foi transportado da capital fluminense para a Polinter. “Cumpri meu papel de promotora, evitando o clamor público e consegui garantias de que ele vai ficar em uma cela especial na prisão no Rio de Janeiro,” disse a promotora em uma entrevista. Henrique se entregou à Justiça por medo de ser morto pelos moradores da região.

Em 1º de setembro de 2000, Henrique enfrentou o Tribunal do Júri pela participação da morte do vigia João Carlos e atentado violento ao pudor de Elizete. Se declarou inocente de todas as acusações, afirmando que só acompanhava o irmão. No laudo médico solicitado no processo, foi considerado são. Ele também não pôde ser processado pelos outros assassinatos, por falta de provas de que o jovem efetivamente matava as mulheres. Após um julgamento de 16 horas, sob um forte esquema de segurança para evitar linchamentos, Henrique foi condenado a 34 anos de prisão.

O caso dos irmãos necrófilos acendeu discussões sobre a falência do sistema penal brasileiro e se as penas no país eram suficientes para punir os crimes cometidos pela dupla. De fato, por mais brutais que fossem os crimes, era preciso entender que a trajetória dos irmãos foi de abandono e pobreza. O caso foi avaliado como folie à deux (loucura a dois) pelos psiquiatras forenses na época, no qual sintomas psicóticos são compartilhados por duas pessoas, normalmente familiares ou amigos. Na avaliação dos psiquiatras, Ibraim era a cabeça psicótica dos crimes e Henrique sofria de algum tipo de retardo mental. Inevitável mencionar que a região de Janela das Andorinhas ganhou uma má fama no país, embora até hoje seja um local pacato, tomado pela natureza e habitado por famílias do campo.

“A história dos irmãos necrófilos será passada de pai para filho, muitos fatos serão alterados e no futuro será mais uma lenda da região. Poucos lembrarão que a 30 minutos de carro do centro da cidade vivia uma família totalmente desequilibrada, onde o pai desconhecia o direito dos filhos, uma família alcoólatra que passava maior parte do tempo nas famosas biroscas tão conhecidas na região”, escreveu o João Curty, colunista do jornal A Voz da Serra após a captura de Henrique.

Até hoje, Ibraim e Henrique são citados como dois jovens analfabetos e animalescos, porém a destreza dos assassinos para despistar a polícia e os moradores durante todo o ano de 1995 prova o contrário. A história completa dos dois, infelizmente, só foi contada através de notícias de jornais e da fala de outras pessoas. Com a morte de Ibraim foi-se a possibilidade de entender as motivações de crimes tão brutais potencializados pela misoginia e uma vida sofrida.

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