Suspeitos de estupro coletivo em Cordeiro dizem que relação foi consentida

Suspeitos de estupro coletivo em Cordeiro dizem que relação foi consentida
Da primeira vez que lhe falaram sobre o vídeo íntimo que estava circulando na internet, ela não acreditou. A ficha da jovem de 22 anos só caiu quando viu, com os próprios olhos, as imagens dela com três homens em um quarto escuro com um colchão no chão. O crime aconteceu na volta de uma festa, na noite de 13 de julho — uma semana antes da moça ver a gravação.
 
No vídeo, três homens aparecem tendo relações sexuais com a vítima, que aparece drogada, como dz o delegado responsável pelo caso, Robson Pizzo Braga. Todos os três suspeitos de envolvimento no caso de estupro coletivo ocorrido em Cordeiro já prestaram depoimento. Segundo o delegado responsável pelo caso, eles alegam que a relação com a jovem teria sido consentida, e que o compartilhamento das imagens aconteceu após o celular em que o vídeo estava ter sido furtado. As imagens da vítima tendo relação com os três envolvidos foram compartilhadas em vários grupos de WhatsApp
 
Segundo Pizzo, nenhum deles nega a relação, mas afirmam que foi consensual. Nas imagens, a jovem tem movimentos lentos e não consegue fixar o olhar, conforme descreveu a advogada da vítima, Valéria Melo. O caso foi registrado como estupro e divulgação de estupro.
 
A vítima prefere não ter a identidade revelada, mas morando em Cordeiro, uma cidade de cerca de 20 mil habitantes na Região Serrana do Rio, a sua vontade não foi respeitada. Ela teve sua intimidade violada e exposta; passou a receber ataques nas redes sociais e a ser julgada nas ruas — o que fez com que a jovem se afastasse do trabalho, deletasse os perfis nas redes sociais e deixasse de sair de casa.
 
Abalada, a vítima disse que não comentaria sobre os três envolvidos. A advogada disse que os homens, que também são de Cordeiro, continuam a circular pela cidade normalmente. Já a jovem, não.
 
Em um dos trabalhos que tinha, a vítima disse que pediram para que ela se afastasse.
 
— Não chegou a ser uma demissão, só pediram para que eu ficasse longe de lá por um tempo — explica.
 
No outro, um comércio da própria família, foi a jovem que decidiu se afastar. De acordo com a advogada, os carros que passavam por lá estavam diminuindo a velocidade para poder vê-la, e pessoas entravam no estabelecimento e faziam piadas.
 
A jovem prefere não comentar os ataques que começou a sofrer, diz apenas que as pessoas estão fazendo julgamentos. Esse foi um dos motivos que a fez deletar seu perfil nas redes sociais.
 
— Tem muitas pessoas que julgam, elas iam no meu facebook para fazer isso. Até aparecia alguém que queria ajudar, mas a maioria só quer te julgar — conta a jovem.
 
A vítima também conta que muitos amigos se distanciaram dela. Uma das atitudes que mais a machucou, ela fala, foi a de uma amiga próxima. Antes de ter ciência do vídeo íntimo, a jovem foi em uma festa em Cordeiro e tirou fotos com a amigas.
 
— Eu tinha publicado essas fotos. Quando o vídeo vazou, a minha amiga ligou pedindo para que eu deletasse as fotos. Ela não queria relacionassem ela comigo — explica.
 
Desde que o crime veio a tona, a jovem conta que sua vida mudou drasticamente. Hoje, quase não sai de casa e passa o dia inteiro deitada. Também tem enfrentado dificuldades para dormir, pois, vez ou outra, acorda pensando em toda a repercussão negativa que está tendo.
 
— Eu tinha uma vida normal. Saía de manhã para trabalhar, de tarde ia para a escola. Eu ia para festas, me divertia. Uma vida normal de uma jovem de 22 anos.
 
Estudante do 2º ano do ensino médio, as férias da jovem terminam na próxima segunda-feira, mas ela já diz que não deve voltar às aulas tão cedo. Antes, sonhava em entrar para a Polícia Civil. Agora, a jovem afirma estar insegura em relação ao futuro.
 
— Acho que minha vida acabou. Não tem como voltar a vida em sociedade em Cordeiro — desabafa.
 
O crime e as investigações
 
O caso aconteceu depois da Festa dos Carecas na cidade vizinha, em Cantagalo. Lá, a jovem encontrou um conhecido, com quem começou a conversar, e bebeu do copo dele. Em determinado momento, a moça se sentiu mal e o homem ofereceu uma carona até Cordeiro.
 
A última lembrança que teve foi dentro do carro, conversando com o conhecido e outro homem, amigo do primeiro e que ia para o mesmo destino. Depois, acordou em casa, no dia seguinte. No vídeo, um terceiro homem aparece nas imagens. A vítima não se lembra de ter encontrado com ele.
 
De acordo com o delegado Robson Pizzo, o vídeo foi feito na casa de um dos envolvidos. Segundo ele, nas imagens, a vítima está consciente mas aparentava estar drogada. Uma das hipóteses da polícia é que ela tenha ingerido “Boa noite, Cinderela”:
 
— Ninguém disse que ela estava inconsciente. O uso de drogas do tipo “Boa noite, Cinderela” não é para isso. A vítima altera o comportamento, aparenta sonolência ou embriaguez, e pode ter blackout. Isto é, esquecer o que ocorreu.
 
A Polícia Civil informou que aguarda o terceiro envolvido ser ouvido para avaliar os requisitos legais do caso com mais prudência.
 
FONTE: JORNAL EXTRA