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Memórias de um menino de fazenda de café do século 19

O artigo de hoje é sobre uma das histórias mais interessantes de famílias imigrantes que envolve suíços, alemães e italianos, no município de Cantagalo. Em meados do século 19, Cantagalo atraía imigrantes europeus, naturalistas, médicos e visitantes da nobreza europeia como o príncipe Adalberto de Hohenzollern, que em 1842 quis conhecer as fazendas de café da Magna Cantagalo. O objetivo deste artigo é apresentar a trajetória da família Euler, suíços alemães que se estabeleceram em Cantagalo, na fazenda Bom Vale. A história tem início com o italiano Pietro Guerrini (assinava Vincenzo) que imigrou para o Brasil no ano de 1839 levando consigo a esposa, a irlandesa Mary Hamilton-Stuart e os filhos Vincent, Louis, Madalena e Jane. No entanto, Mary falece no navio pouco antes do desembarque no porto do Rio de Janeiro. Guerrini se dirige para Cantagalo onde pretendia adquirir terras e plantar café, item principal de exportação do Brasil. Como Guerrini, muitos europeus abastados igualmente haviam se estabelecido neste município.

Viajara no mesmo navio que Pietro Guerrini o médico alemão Beda Naegele e tudo indica que o italiano resolvera comprar terras em Cantagalo aconselhado por Naegele, que além da prática da medicina se tornaria fazendeiro de café. Porém, Guerrini faleceu em 1841, aproximadamente um ano após a sua chegada ao Brasil, com 61 anos de idade, tendo sido enterrado em Cantagalo. Suas filhas Jane e Madalena casaram-se com fazendeiros abastados deste município enquanto os seus filhos homens retornaram para a Irlanda, terra natal de sua mãe. Jane casou-se com o médico Beda Naegele tendo 10 filhos, vivendo o casal na fazenda São Bartolomeu, em Cantagalo. Ao ficar viúva, Jane casa-se com o francês Pierre Coube, mercador ambulante que percorria as fazendas vendendo artigos de luxo do Oriente e que Beda Naegele odiava.

Madalena Gerrini casou-se em 1844 com um provecto viúvo, o suíço francês Charles Aimé Girard, cafeicultor na fazenda Bom Vale, em Cantagalo, tendo o casal uma filha de nome Constance. Charles Girard não fazia parte do grupo de suíços que chegaram a partir de 1819, em Nova Friburgo, para se estabelecer em uma colônia. Veio a óbito em 1852, tendo deixado uma filha do primeiro matrimônio, casada e que vivia na França. Dois anos depois de ter enviuvado, Madalena casa-se em segundas núpcias com o suíço alemão Carl Hieronymus Euler(1832-1901), curiosamente procurador da filha de Charles Girard e que viera a Cantagalo justamente para tratar dos interesses de sua cliente no inventário. Madalena era dez anos mais velha que Carl Euler, um lindo rapaz de 1,80 m, atraente, inteligente e simpático. O casal teve três filhos, Maria, Carlos (Charles) e Arnold, este último falecido com um ano e meio de idade.

Carl Hieronymus Euler. Acervo família Euler
Carl Hieronymus Euler. Acervo família Euler

Entre os filhos deste casal vai nos interessar neste artigo Carlos Euler Junior, que deixou interessantes memórias sobre Cantagalo e outros aspectos da região serrana fluminense. Nascido em 14 de fevereiro de 1859, em Cantagalo, viveu na fazenda Bom Vale até os 11 anos de idade, quando em 1870 partiu com a família para a Suíça, de modo a ter uma melhor formação educacional, apesar do município de Nova Friburgo, próximo a Cantagalo, possuir excelentes colégios a exemplo do Instituto Colegial Freese, do inglês John Henry Freese e o colégio São Vicente de Paulo, do bávaro Barão de Tauthpheus. Antes de tratarmos da vida cotidiana de Carlos Euler Junior na fazenda é importante destacar que o seu pai Carl Hieronymus Euler era ornitólogo e deixou importantes trabalhos publicados. Evidentemente todas as suas pesquisas foram realizadas com pássaros da mata da fazenda Bom Vale, no período em que viveu em Cantagalo.

A vila de Cantagalo no século 19. Acervo pessoal
A vila de Cantagalo no século 19. Acervo pessoal

Foram muitos os artigos que Carl Euler publicou em revistas nacionais e estrangeiras a exemplo do Journal für Ornithologie, que o colocou como membro da Sociedade Alemã de Ornitologia, em Berlim. Tanto no Jornal do Commercio como no Jornal do Brasil podem ser encontrados diversos de seus artigos. Escreveu a monografia “Descrição de ninhos e ovos das aves do Brasil” e muitos livros sobre pássaros publicados no Brasil fazem referência a Carl Euler. Tudo indica que foi a beleza e a abundância de pássaros na fazenda Bom Vale que lhe despertou o pendor para a ornitologia, já que uma parte da mata de sua propriedade não havia sido ainda objeto da invasão desenfreada de arbustos de café substituindo os gigantes da floresta. Carl Euler fez uma parceria com o taxidermista alemão de sobrenome Schreiner que empalhou a sua coleção de 368 espécies de pássaros, que parte está hoje no Museu de Bâle, na Suíça e a outra no Museu de Berlim.

O Brasil atraía muitos naturalistas europeus. Acervo Biblioteca Nacional
O Brasil atraía muitos naturalistas europeus. Acervo Biblioteca Nacional

A fazenda do Bom Vale possuía 1.500 hectares, ou seja, 400 alqueires fluminense, com um plantel de 200 escravizados instalados em mais de uma senzala. Pelo número de escravizados depreende-se que a Bom Vale produzia muito café. Na consulta que fiz na internet em 31 de janeiro de 2022, esta propriedade rural está sendo vendida pela corretora “mgf imóveis”, possui atualmente 61 alqueires, com “área em terras, pastos e capoeiras” e não possui mais a casa-sede. A tropa da fazenda Bom Vale compunha-se de 8 lotes de 6 animais; cada lote estava entregue a um tropeiro e acima deles havia um capataz que guiava a tropa e respondia pelo transporte.

Colheita do café. Marc Ferrez, entre 1870 e 1899. Acervo Biblioteca Nacional
Colheita do café. Marc Ferrez, entre 1870 e 1899. Acervo Biblioteca Nacional

No rés do chão da casa-sede guardavam-se os arreios e cangalhas da tropa e me parece não ter sido um sobrado suntuoso. Por outro lado, os seus proprietários tinham aparelhos de porcelana, cristais e baixelas de prata. Surgiam nas fazendas muitos ambulantes vendendo louças finas, cortes de seda pura chinesa, joias e tinham freguesia certa. O riacho que passava pela propriedade era o Macuco, que tocava a roda d’água movendo os pilões e os outros mecanismos de beneficiar o café. Antes da água do riacho cair na roda d’água atravessava um grande tanque rodeado de bambus, que vedavam a vista, e nele se tomava banho pela manhã. No açude da fazenda havia marrecos, piaçocas, saracuras e outras aves aquáticas. A propriedade tinha pomar, horta e um jardim. O memorialista Euler Junior brincava com os escravos de sua idade caçando passarinhos a bodoque ou armando laços. Pescavam bagres e acarás no córrego barrando a sua passagem com balaios de taquara onde os peixes ficavam presos. Um dia apareceu um bicho no balaio que meteu medo na meninada. Tratava-se de uma lagosta que naquela região desconheciam. Euler Junior era chamado de Nhonhô na fazenda e toda a família passou a chamá-lo desta forma, mesmo adulto.

Carlos Euler Junior com 20 anos. Acervo família Euler
Carlos Euler Junior com 20 anos. Acervo família Euler

Na vida cotidiana, depois de terminadas as orações da noite recorda-se que sua mãe dava corda em uma caixa de música e antes de terminado o último número, a criançada já estava dormindo. O velho cozinheiro africano chamado Joaquim, para se distrair de sua condição de escravo tocava todas as noites marimbau, assim que terminava a arrumação da cozinha. Na fazenda só se usava óleo de mamona feito pela mãe Rita Inhambana, como era conhecida uma “preta velha” perita em fazer o óleo, que era queimado em carcel e candieiros. Euler Junior recorda-se dos calafrios produzidos pelos contos africanos narrados pela “preta Teresa”. Um dia lavando a roupa na beira do rio em sua terra natal apareceu um enorme jacaré que a engoliu de um trago, mas o feiticeiro da sua aldeia conseguiu obrigar o bicho a soltá-la. Para Euler Junior, por vingança do cativeiro, Teresa se divertia com estes contos colocando venenos sutis na cabeça dos filhos dos brancos. Segundo ele “por muito tempo fui perseguido por visões horríficas que provinham dessa fonte e também do que dos pretos eu havia ouvido na fazenda.”

Tico-tico-rei cinza. Acervo fotógrafo Gabriel Monnerat
Tico-tico-rei cinza. Acervo fotógrafo Gabriel Monnerat

Por ocasião das festas de aniversários ao invés de darem jantares, como era comum entre os fazendeiros, os Euler organizavam piqueniques que se realizavam no meio da mata virgem e à beira de um riacho. Os convidados vinham das fazendas vizinhas e se reuniam à sombra do arvoredo sendo servidos de iguarias e vinhos finos pelos escravos. Na fazenda havia um “sítio” com uma pequena casa numa clareira, no meio de uma mata virgem onde por vezes a família ia passar algumas semanas para variar a monotonia da vida na casa-sede. Um pouco além do sítio havia um paiol no qual se guardava o milho colhido, perto de um cafezal novo. Pombos, inhambus e outros pássaros atacavam o paiol para comer o milho que transbordava por entre os paus roliços de suas paredes. Bandos enormes de psitacídeos e columbinos juntamente com macacos, capivaras, pacas, cotias e caititus provocavam verdadeiros estragos nas roças de milho. Havia necessidade de ter vigias armados nas roças para caçar e afugentar a bicharada.

Segundo Euler Junior, Cantagalo “representou entre 1850 e 1880 uma espécie de Eldorado e atraiu, ao lado de alguns aventureiros, gente da melhor casta que ali foi se estabelecer como por exemplo quase todas as antigas famílias de senhores de engenho e de sesmarias da baixada fluminense, fidalgos europeus, médicos, cientistas, etc. A fama das terras de café de serra acima  fez com que a baixada, até então habitada e cultivada, ficasse inteiramente abandonada; por isso os seus rios foram-se obstruindo, formaram-se extensos brejos e a baixada tornou-se inabitável e assolada por malária funesta.” Na realidade povoaram Cantagalo de forma mais significativa indivíduos vindos da província de Minas Gerais e colonos portugueses originários dos Açores e da Ilha da Madeira.

Marreca-ananaí. Acervo fotógrafo Gabriel Monnerat
Marreca-ananaí. Acervo fotógrafo Gabriel Monnerat

Os Euler assim como outros fazendeiros de Cantagalo tinham sempre grande quantidade de hóspedes, amigos da casa. Ia-se formando uma pequena sociedade de escol. Como dito antes, os Euler hospedaram o naturalista e taxidermista Schreiner cuja coleção, fruto de suas expedições  estava no Museu Nacional em uma sala com o seu nome. O memorialista Carlos Euler Junior não cita o nome completo de Schreiner, mas como o associa ao Museu Nacional tudo leva a crer tratar-se de Carl Schreiner(1849-1896) contratado como pesquisador por esta instituição. Este museu especializado em ciências naturais foi criado em 1818 por D. João VI, dando início a atividades de coleta de plantas, animais e minerais do país. Infelizmente em setembro de 2018, coleções arderam em chamas no Museu Nacional e as pesquisas de Schreiner em Cantagalo e em outras regiões do país podem ter se perdido. Possivelmente Schreiner prestava serviços de taxidermia para Carl Euler e igualmente para o Museu Nacional.

“Eu adorava acompanhar o trabalho do Sr. Schreiner. Lembro-me, assim, de uma sucuri que tinha sido morta pelos escravos na roça. A imensa cobra fora trazida por dois deles pendurada em forquilhas e arrastando a cauda numa grande extensão.(…) No dia seguinte, a fazenda foi despertada com o seguimento daquele fato. Um negrinho fora deixado um instante por sua mãe à porta de uma senzala com uma cuia de leite ao lado. Poucos momentos depois ouvem-se gritos apavorados. Algumas pessoas acodem ainda a tempo de ver esgueirar-se tremenda cobra, idêntica a que, na véspera, havia sido empalhada. A pobre mãe espavorida, gaguejando e tremendo(…) voltando para buscar o filho, o encontrou quieto e tranquilo observando a cobra que sorvia o leite da tigela. Aos seus gritos, o réptil, prudente, raspou-se. Mas foi-lhe dada caça até ser morta. É que as cobras também têm sua vida conjugal e aquela viera, pelo rasto, atrás da companheira desaparecida.”

Retorno dos negros de um naturalista,1835, Jean-Baptiste Debret. Acervo Biblioteca Nacional
Retorno dos negros de um naturalista,1835, Jean-Baptiste Debret. Acervo Biblioteca Nacional

Um episódio divertido ocorreu na Bom Vale que envolve o taxidermista Schreiner. 

“Um dia, na fazenda, à mesa do jantar, ele[Carl Euler] participou que mandara abrir uma nova picada na mata virgem, posta às ordens de seus hóspedes que desejassem caçar. Mas, observou, não convinha que fosse frequentada logo no dia seguinte, pois à abertura de uma picada sucede o retraimento da caça e seria prudente esperar um ou dois dias a fim de restabelecer a confiança entre os habitantes da mata.(…) Todos concordaram. No dia seguinte meu pai, que não caçava, mas que era apaixonado ornitólogo(…) tomou de um bastão para se defender de alguma cobra e se enfiou pela picada(…) Caminhava devagarinho, procurando surpreender os seus amigos passarinhos e, com paciência, forçar-lhes a intimidade e descobrir lhes novas características. Súbito, ouviu um tiro de espingarda e, logo a seguir, gemidos e pragas. Apressou-se a alcançar o ponto de onde partiam.(…) Encontrou caído o seu amigo Schreiner chumbado na perna e muito magoado com o tio Luis. Este, desolado, procurava explicar-lhe que o tomara por um animal e por isso atirara. Assim, descobriu-se que os dois caçadores não haviam resistido à tentação entrando ambos na picada e lá se encontrando, resultando disso uma quase tragédia.”

Nada o seduzia tanto como contemplar o voo dos gaviões-tesoura que pululavam no céu da Bom Vale “naquele tempo em que existiam ainda extensas matas virgens”. Com o avanço do plantio de arbustos de café pelos morros, grandes extensões da mata eram queimadas. Assim que se elevava no ar a fumaça das chamas, o céu ficava povoado de gaviões-tesoura. “Esses gaviões mostravam-se na fazenda da Bom Vale sempre que se ateava fogo a uma derrubada; eram, aliás, nisso acompanhado por outras espécies, rodeando o incêndio, à espreita dos pequenos animais que em pânico se precipitavam para fora do braseiro e lhes eram por isso umas fáceis presas. Diziam os pretos que as tesouras[gaviões] tinham nessas ocasiões principalmente em mira as cobras que fugiam precipitadamente do fogo.” Outra ave de rapina que aparecia na fazenda era o harpia harpyja, um predador de periquitos e maritacas.

Sabiá-do-campo. Acervo fotógrafo Gabriel Monnerat
Sabiá-do-campo. Acervo fotógrafo Gabriel Monnerat

A fauna ornitológica da Bom Vale era tão rica que Carl Hieronymus Euler catalogou 250 espécies e pelo menos 150 lhe escapou. Mas o avanço da cultura de café já se fazia sentir com o desaparecimento de muitas espécies que havia emigrado. Inúmeras espécies necessitam de grandes tratos de terras da mata virgem para existirem. Faltando esta condição elas desaparecem. Devido à extensão cada vez maior da cultura de café em Cantagalo, em meados do século 19, já tinham retirado araras, mutuns, o gavião penacho e o urutaurana.

“Pelo contínuo avanço da cultura e sucessivas derrubadas, muitas espécies, cuja existência está intimamente ligada e condicionada pela continuidade da mata virgem, já haviam emigrado de Cantagalo e só eram ainda encontradas nos vales dos afluentes da margem esquerda do Paraíba, como o Pomba, o Muriaé, o Carangola e o Itabapoana, que naquele tempo ainda constituíam misteriosos sertões habitados por raros bandos de Puris. Entre essas espécies as mais conhecidas eram a araras, os mutuns, as arapongas e outras mais raras e ariscas que pouco se deixam ver.”

Era uma prática as residências, desde as mais ricas até as mais modestas terem viveiros de pássaros, o que também contribuía com a extinção de algumas espécies. Os trabalhos ornitológicos do pai incentivava Euler Junior a acompanhar Schreiner em suas excursões. Eles saíam pela manhã muito cedo, no “tempo dos passarinhos”, de maio a setembro. Um cão treinado por Schreiner os acompanhava e tinha como função buscar no mato mais fechado a caça que havia sido abatida sem a danificar. Quando retornavam a casa-sede o trabalho de taxidermia era imediatamente iniciado. Euler Junior fizera uma coleção de borboletas que o pai doou juntamente com os pássaros aos museus anteriormente relacionados.

Os Euler residiram até 1868 na fazenda Bom Vale, quando o patriarca decidiu vender a propriedade. Mudou-se com a família para a Suíça, mas retornariam em 1874, se estabelecendo no Rio de Janeiro e deixando Euler Junior na Suíça para completar os seus estudos de engenharia. Na viagem de partida de Cantagalo para a Corte, Euler Junior deixou interessantes observações. Quando a linha férrea ainda não chegara serra acima, a descida da serra Boa Vista era feita por particulares a cavalo e para o transporte do café e outras mercadorias por meio de mulas. Euler Junior nos informa que a sua irmã desceu a serra em uma liteira com um dos filhos, possivelmente carregada por escravizados. Percebe-se que evita mencionar os escravos em certas passagens e escreveu que “havia pajens a nos acompanharem” e a tropa levava as bagagens. Os pais haviam viajado antes. Em Cachoeiras do Macacu tomaram o trem, cuja linha férrea subindo a serra até Nova Friburgo ocorreria somente a partir de 1873, estendendo-se aos demais municípios da região serrana nos anos subsequentes.

Carregando as mulas para viagem. Prinz Von Wied Maximilian. Acervo Biblioteca Nacional
Carregando as mulas para viagem. Prinz Von Wied Maximilian. Acervo Biblioteca Nacional

Antes da linha férrea, ao descerem a serra, as tropas seguiam para Porto da Caixas e mais tarde para Vilanova onde o café era transbordado para faluas que o levava para as casas comissárias da Corte. Por ocasião da narrativa, Cachoeiras era a última estação da Estrada de Ferro Cantagalo. Para ali se dirigiam as tropas carregadas de café e na volta levavam mercadorias que abastecia o comércio do interior. A linha férrea foi construída  justamente para escoar o café das fazendas da grande Cantagalo, principalmente da produção da família Clemente Pinto, que receberam títulos de barões e condes de Nova Friburgo. Euler Junior se encantou com a locomotiva e anos mais tarde foi um dos engenheiros responsáveis pela construção da linha férrea de Sumidouro, que ligava o estado fluminense a Minas Gerais.

Encontro do Rio Macacu com o a Baía de Guanabara. Acervo fotógrafa Lúcia Gomes
Encontro do Rio Macacu com o a Baía de Guanabara. Acervo fotógrafa Lúcia Gomes

No povoado de Vilanova, situado à margem do rio Macacu tomaram um vapor. Posteriormente a seção Cachoeiras até Vilanova seria suprimida em razão do ramal até Santana do Maruí, em Niterói. Consequentemente seria extinguida a navegação, que era muito precária pela sinuosidade do rio e pelos inúmeros bancos de areia que obstruíam o seu leito. O vapor encalhava várias vezes numa mesma viagem. Havia ainda desconforto pois os passageiros dividiam o espaço com as cargas de café e jacás de galinhas. Mas a viagem era belíssima, notadamente no encontro do rio Macacu com a baía da Guanabara, com majestosas montanhas ao longe. A baía era muito animada com o movimento de vapores, barcos à vela e veleiros que eram denominados de escunas, brigues, barcas e galeras, conforme o seu porte e mastreação.

“Da nossa passagem por Friburgo guardo uma vaga e fugitiva lembrança, ao passo que a etapa dali a Cachoeiras, que compreende a descida da serra por dentro da imponente mata virgem, não se apagou da minha memória. A estrada, toda ela calçada à romana, por onde se fazia o comércio de serra acima (…) íamos descendo por ela devagar, no meio do silêncio característico e empolgante da mata virgem, só interrompido uma vez ou outra pelo eco retumbante de uma pancada de cacete dada na coberta de couro das cargas ou pelo grito de um tropeiro chamando à ordem um dos animais.”

Entrevistei Gabriel Monnerat, fotógrafo de pássaros e colunista do SERRANEWS que vem fazendo um trabalho de observação, identificação e catalogação de espécies da avifauna em Cordeiro e Cantagalo. Publicou o livro “Quintais de Passarinho” realizando a catalogação das aves existentes no espaço urbano, jardins e parques. Segundo o fotógrafo, através de pesquisa e conversas com moradores de Cantagalo tem informação de que muitas espécies que eram vistas anos atrás desapareceram, seja em razão da expansão urbana ou por terem sido capturados. Além do livro Gabriel Monnerat publica suas fotos no site wikiaves destinado ao registro de aves.

Livro Quintais de Passarinho de autoria de Gabriel Monnerat
Livro Quintais de Passarinho de autoria de Gabriel Monnerat

Carlos Euler Junior viveu dez anos na Suíça e formou-se em engenharia civil na Escola Politécnica de Zurich. Terminado o curso em 1880 regressou ao Brasil no ano seguinte. Conheceu a sua esposa Isabel Ribeiro de Almeida Veiga em Nova Friburgo, com quem casou-se e teve 8 filhos. Começou a trabalhar em janeiro de 1883 como engenheiro da Estrada de Ferro Sumidouro, cuja construção se iniciava naquele ano. A seguir trabalhou na Estrada de Ferro Leopoldina e Central do Brasil e sua especialidade era engenharia de pontes e estruturas metálicas. Foi o introdutor no Brasil do cálculo em concreto armado de obras de grandes proporções. Optou pela nacionalidade brasileira renunciando a suíça, a qual teria direito, por ser o seu pai cidadão daquele país. Faleceu em 1940 no Rio de Janeiro. Em suas memórias percebe-se claramente que os anos mais felizes de sua vida foram na fazenda Bom Vale, em Cantagalo, e não na Suíça, onde Nhonhô,  menino de fazenda, não trouxe boas recordações.

Fonte: Toda a narrativa deste artigo foi extraída do livro “Carlos Euler. Origens, vida e obra”, de Mabel Euler Minvielle.


Janaína Botelho – Serra News

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