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Turismo Rural na Fazenda Sossego em Cantagalo

Localizada em Cantagalo, no distrito de Euclidelândia, a Fazenda Sossego é uma típica propriedade rural produtora de café do século 19, na região serrana do Estado do Rio de Janeiro. A casa-sede foi construída na década de 1830, tendo tido acréscimos ao longo do tempo. No ano de 1852, o capitão Antônio Teixeira de Carvalho casa-se com Rosa Vieira de Jesus, herdeira da Fazenda Sossego. Rosa de Jesus falece três anos depois de seu casamento e o capitão casa-se com Virgínia Amélia Durão, descendente do comendador tenente-coronel João Pereira Durão, proprietário da Fazenda do Bonfim. Com o falecimento de Antônio de Teixeira Carvalho, seus bens são divididos em herança entre os filhos. Como em todos os fenômenos econômicos, o ciclo do café fluminense teve ascensão, apogeu e declínio. Vários fatores contribuíram para uma crise no setor como a queda da produtividade dos cafeeiros pelo esgotamento do solo, o encarecimento do preço dos escravos, o aparecimento de pragas nas lavouras e o pagamento dos juros dos empréstimos sob hipoteca.

No antigo terreiro de café fica o gado. Acervo pessoal
No antigo terreiro de café fica o gado. Acervo pessoal

Na década de 1880, a produção de café fluminense, sustentáculo da economia do Brasil Império, entra em processo de decadência. A abolição da escravidão foi o golpe final. Sem a colheita, em razão da evasão dos escravos, a safra do ano de 1888, perde-se na terra, levando os fazendeiros fluminenses a falência e a um sombrio empobrecimento. Em Cantagalo, muitas propriedades da nobreza local foram adquiridas por descendentes de imigrantes suíços, como é o caso da Fazenda Sossego. No ano de 1901, a Fazenda Sossego foi adquirida pelo coronel Sebastião Monnerat Lutterbach, um dos maiores cafeicultores da região, igualmente proprietário da Fazenda Sant’Anna, que pertencera ao Barão de Cantagalo. Depois do coronel, essa propriedade passa a pertencer a José Guedes Martins e sucessivamente a seu neto, Rogério Martins Daflon, proprietário até os dias de hoje. A partir da decadência progressiva da economia cafeeira, a Fazenda Sossego volta sua atividade à criação de gado e permanece como uma propriedade produtiva, notadamente na venda de leite.

Na seca o gado necessita de alimentação suplementar. Acervo pessoal
Na seca o gado necessita de alimentação suplementar. Acervo pessoal

Na região serrana prevalece o gado Girolando. Existe no Brasil uma diversidade de raças bovinas, a Girolando, Holandesa, Gir, Jersey, Guzera, Pardo-Suíço, Simental e Simbrasil. Estima-se que cerca de 50% do rebanho leiteiro brasileiro seja formado por animais oriundos do cruzamento entre Gir e Holandes, base do Girolando. Essa raça bovina consegue se adaptar facilmente a diferentes sistemas de produção e de temperatura. O guzerá também é adotado nessa região. Extremamente rústico possuiu dupla aptidão dando carne e leite. As matrizes puras ou cruzadas desmamam bezerros precoces que vão para a recria e engorda, garantindo lucro à propriedade que faz uso do guzerá.

Lúcia Daflon, proprietária da Fazenda Sossego. Acervo pessoal
Lúcia Daflon, proprietária da Fazenda Sossego. Acervo pessoal

Como cada vez mais os proprietários de fazendas históricas vêm recebendo grupos de pessoas dentro de uma estrutura do turismo rural. A boa notícia é que a Fazenda Sossego está aberta à visitação previamente agendada. Além de ser uma fazenda histórica é igualmente produtiva e assim o visitante poderá desfrutar do ambiente rural e doméstico oitocentista. Visitei a fazenda e descrevo algumas particularidades. Na cozinha, sobre o fogão a lenha existe o fumeiro, uma espécie de gaiola em ripas de madeira onde eram penduradas as rapaduras.

A refeição aos visitantes é preparada no fogão a lenha. Acervo pessoal
A refeição aos visitantes é preparada no fogão a lenha. Acervo pessoal

O calor do fogão e a fuligem mantinham a rapadura seca, impedindo-a de derreter ou azedar. A peça de rapadura precisava ser raspada para se retirar a camada de fuligem na qual se misturavam teias de aranhas e poeira do ambiente. Na decoração dos ambientes sociais da casa-sede, antigos objetos da fazenda viram peças de decoração a exemplo de uma antiga roda de carro boi e um recipiente de madeira para transportar o porco abatido que viram mesa de centro, ganhando esse último um tampo de vidro.

A roda do carro de boi vira uma mesa de centro. Acervo pessoal
A roda do carro de boi vira uma mesa de centro. Acervo pessoal

Chapéus, o berrante, o latão de leite, o velho pilão com as marcas de uso, os pesos das balanças, o recipiente de madeira de depósito de cereais e um antigo telefone de parede, todo esse acervo faz da residência um centro de memória da vida rural no passado. Percebe-se que nenhuma peça é colocada nos ambientes por acaso. Tudo foi devidamente estudado para que o visitante se perca em uma miríade de memórias afetivas. Uma preciosidade é o vestido de noiva do casamento de Joaquim Tavares e Hermínia Martins Daflon realizado no ano de 1955, o oratório e a alcova.

O paiol vira um centro de memória de instrumentos de trabalho da fazenda. Acervo pessoal

Uma curiosidade da casa-sede é uma ligação entre um dos quartos e porão onde dormiam os escravos domésticos. Pode ter sido feito para o acesso de escravas ao cômodo com o intuito se ter relação sexual forçada com o proprietário da fazenda. Em razão do circuito turístico na Fazenda Sossego, os proprietários criaram no belíssimo paiol um Centro de Memória que nos permite conhecer através de seu acervo a história dos instrumentos de trabalho na atividade rural. A Fazenda Sossego faz parte do turismo rural do Ciclo do Café, uma vocação que vem desenvolvendo nos últimos anos na região serrana fluminense.


Janaína Botelho – Serra News

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